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Revista Foco no.103
10/02/2008
Isaias Oliveira

Sucesso do ABC faz ressurgir paixão pelo futebol

ABC comanda o futebol: Após construir uma grande estrutura, alvinegro vira a sensação do futebol estadual. Velhos conhecidos fazem bonito na série C

"Do time titular do ABC que fez a última partida contra o Bragantino, foram mantidos para esta temporada oito jogadores". Esta afirmação do técnico Ferdinando Teixeira traduz bem a diferença existente entre os dois principais clubes do Rio Grande do Norte. Enquanto o ABC busca a todo custo manter seu elenco principal - apenas três estão fora em 2008, dois negociados e um com contrato não renovado - o América estabeleceu ao longo do ano passado a estultice de contratar dezenas de jogadores, entre eles, bondes e cabeças de bagre, vários técnicos dentro de uma única competição. O resultado não podia ser outro: o ABC fez bonito na série "C" e o América fechou 2007 segurando de forma vergonhosa a lanterna da série "A".

Os números mostram que o ABC realizou uma extraordinária campanha na série "C" jogando dentro de casa. Foi no "Frasqueirão" que o time comandado por Ferdinando Teixeira conseguiu sua passagem para a série "B" - de 16 jogos realizados, venceu 15 e empatou apenas 1. O êxito alcançado se deve a um criterioso trabalho de base que vem sendo desenvolvido na Vila Olímpica "Vicente Farache" e a capacidade profissional do técnico. Antes do começo da série "C", a direção do clube realizou um processo de rejuvenescimento do elenco, visando tornar o time mais resistente e competitivo.

Para Ferdinando, seu time precisa ter uma pegada forte - daí muitos inadvertidamente o acharem retranqueiro - e uma saída de bola veloz para o ataque. "O ABC tornou-se um time onde o coletivo sobrepujou o individualismo e, por isso, conseguiu a almejada ascensão para a série "B", afirma.

A PARTIDA CHAVE DE 2007
A história de sucesso do ABC em 2007 deve ser contada a partir da vitória na decisão do Campeonato Estadual, no dia 29 de abril, por 5x2, contra seu principal adversário, o América. O alvinegro chegou aquele jogo precedido de uma fraca campanha no Estadual e de uma derrota vergonhosa dentro do seu estádio para o time de Açu, por 5x0. Após essa derrota, a direção do clube de Natal teve a maturidade necessária para repensar os rumos do time e trouxe para o comando da comissão técnica o consagrado profissional norte-riograndense, Ferdinando Teixeira.

Essa simples mudança teve um efeito revitalizador - tanto no elenco, quanto na torcida e na própria direção do clube. Isso porque Ferdinando, além de sua bagagem no futebol, é um técnico carismático que passa confiabilidade ao atleta, conhece com profundidade a preparação física, comporta-se com ética e exerce a liderança com naturalidade. "O fator psicológico teve grande influência no resultado da final do campeonato". Afirma Teixeira.

De fato, tanto a imprensa quanto o América alardeavam que o ABC era apenas um mero coadjuvante na festa que seria alvirubra. Entretanto, se esqueceram que algo de importante estava mudando no ABC. "Enquanto o América nos subestimava, encaramos aquele jogo com muita seriedade e isso ficou evidenciado dentro de campo", lembra Ferdinando.

Um dos motes para o trabalho de animação psicológica junto aos jogadores, conta Ferdinando, foi uma entrevista dada pelo técnico do América na época, Estevão Soares, dizendo que o ABC era apenas um "timezinho raçudo". A gravação dessa entrevista foi repetida várias vezes para os jogadores com o objetivo de mostrar que eles precisavam dar uma resposta dentro de campo. O resultado disso tudo foi uma vitória contundente do alvinegro sobre o alvirubro, pelo elástico placar de 2x0.

RETRANQUEIRO QUE NADA, FERDINANDO É O 12o. JOGADOR EM CAMPO

Ferdinando, que tinha chegado ao ABC um mês e meio antes, conseguia assim, partir para o campeonato brasileiro da série "C" com um time cheio de moral - campeão estadual em cima de seu principal rival e com uma goleada. Estava, dessa forma, começando a ser escrita a história de sucesso do ABC em 2007. Depois do título estadual, reconhece o técnico, a diretoria passou a acreditar mais nas possibilidades do time e a torcida também chegou junto incentivando e enchendo o estádio "Frasqueirão".

SURGE UM NOVO ÍDOLO
A partida contra o América também sacramenta o surgimento de um novo craque e ídolo alvinegro - o atacante Wallysson, jovem filho de Macaíba, projetado para o futebol dentro da Vila Olímpica "Vicente Farache". Jogando com simplicidade e de forma divertida, Wallisson marcou quatro tentos na histórica vitória alvinegra. Sua atuação serve também para mostrar o acerto do ABC em apostar na formação de novos talentos e investir na infra-estrutura de seu futebol de base. Segundo Ferdinando Teixeira, Wallisson é um jogador diferenciado, bom caráter e dedicado aos treinamentos. Apesar de sua categoria, joga sempre pensando no coletivo. "A fama não subiu a sua cabeça e ele tem se mantido humilde", garante o técnico.

FOCO NO ESTADUAL
Com as estratégias sendo delineadas visando uma boa campanha na série "B", o foco do ABC neste início de ano é o Campeonato Estadual. "Vamos lutar pelo biccampeonato e fazer uma boa Copa do Brasil", promete.

Nesse sentido, o time que perdeu seu principal jogador - Wallisson, para o Atlético Paranaense, e Nego para o Atlético Mineiro -, reforçou-se para o certame estadual com as contratações de Marcelinho, Alysson, Ronildo, Waldir Papel, Bosco, Marco Antônio, Fábio Costa e Audálio.

Presidente Judas Tadeu e diretor Cláudio Porpino festejam vitória.

DIRIGENTE COM PAIXÃO E SERIEDADE
O presidente do ABC, Judas Tadeu Gurgel, atribui ao trabalho, tanto da equipe quanto da direção, o êxito alvinegro no ano de 2007. Judas conta que o início do campeonato do ano passado foi turbulento e que após do jogo contra o ASSU, onde o ABC perdeu por 5x0, ficou evidenciado que algumas medidas precisavam ser tomadas para que o time reagisse. Nesse sentido, ressalta a coragem que a diretoria teve para mudar de rumo e aponta o êxito da contratação de Ferdinando Teixeira em substituição a Roberval Davino. "O jogo contra o ASSU foi um divisor de águas, mas com a chegada de Ferdinando o time embalou", ressalta.

A vitória histórica contra o América na decisão do campeonato é vista, também pelo presidente alvinegro, como fundamental para a reconquista da confiança do torcedor na diretoria e no time. "Com aquele placar reconquistamos a auto-estima da torcida", reforça Tadeu.

ESTRUTURA ALVINEGRA
Judas Tadeu afirma que a construção da Vila Olímpica tem ligação direta com a coragem da diretoria em enfrentar o desafio de tornar um patrimônio físico de grande dimensão - mas sem maior utilidade - numa infra-estrutura futebolística que funciona em prol do ABC. "Isso tem sido feito também contando com o apoio e o acompanhamento do Conselho Deliberativo do Clube", acentua.  Para tornar possível a façanha da Vila Olímpica "Vicente Farache", o ABC permutou 3.75 hectares de um total de 15, com uma empresa de construção civil. Na permuta, diz Judas Tadeu, o ABC recebeu o equivalente a 70% das obras existentes na estrutura de seu centro de esportes.

A atual Vila Olímpica conta com o Estádio "Maria Lamas Farache" (conhecido por Frasqueirão) com 18 mil lugares e a infra-estrutura necessária para o bom funcionamento; centro de treinamento de formação de novos atletas - com dois campos de futebol e alojamento para 50 jovens, com dormitórios e refeitório; e um centro de treinamento profissional com campo de futebol e concentração qualificada. O ABC tem investido em sua Vila Olímpica a soma de dez milhões de reais.
No momento, após o êxito do ABC em 2007 e com sua presença assegurada na Série "B" deste ano, o alvinegro conta com os patrocÍnios da SAM'S (desde 1998), Ster Bom, Livraria Câmara Cascudo, Café Santa Clara, e mais cerca de 15 empresas que fazem parte da mídia estática do Frasqueirão.

PRESERVAÇÃO DA BASE
"No futebol quem contrata menos leva uma certa vantagem", diz Judas Tadeu. Seguindo essa fórmula simples e eficaz, a base do ABC tem sido preservada desde a conquista do campeonato de 2007, passando pela série "C" e chegando agora na "B". Entretanto, o presidente alvinegro reconhece que essa manutenção da base foi possível também devido à existência de um calendário no futebol do Rio Grande do Norte.
Paralelo a isso, destaca Tadeu, o ABC passou também a negociar atletas com equipes da elite do futebol nacional, como foram os casos de Wallisson (Atlético Paranaense) e Nêgo (Atlético Mineira). O dinheiro arrecadado com essas duas negociações, cerca de um milhão de reais, foi aplicado na própria estrutura da Vila Olímpica, com a construção do módulo quatro do estádio e implantação de 21 cabines para a imprensa esportiva.

ELENCO ALVINEGRO
Contando com uma diretoria liderada por Judas Tadeu Gurgel (presidente) Fernando Antônio Brandão Suassuna (vice-presidente), ABC conta com os serviços profissionais de Ferdinando Teixeira (técnico), Flávio Paiva e Ranielle Ribeiro (preparadores físicos), Eugênio Dantas (preparador de goleiros), Amaral (massagista) e Joca (roupeiro).
Formam o elenco de jogadores: Raniere, Aloísio e Diego (goleiros); Ben-Hur, Alan, Audálio e Fabiano (zagueiros); Bosco, Thiago, Rogerinho, Alysson e Márcio Gama (laterais); Adelmo, Jean, Marcelinho e Danilo Lopes (volantes); Rodriguinho, Fábio Costa e Ronildo (meias-atacantes); e Waldir Papel, Marco Antônio, Ivan, João Paulo e Gabriel (atacantes).