Diário de Natal
10/06/2007

 

ÍNDICE

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Rui Barbosa - o dono da camisa 10

 

Ele esteve no ‘‘olho do furacão’’ em pelo menos dois momentos importantes do futebol potiguar - quando a Seleção Brasileira jogou no (hoje) estádio Machadão, no início de 1982, e quando o ABC conquistou o título de 1983, lembrado pelos gols a rodo. ‘‘O ABC não fazia menos de três gols por partida’’, lembra o ex-dirigente Rui Barbosa.

Quem? Rui Barbosa da Costa nasceu em fins de setembro de 1946, em João Câmara - ‘‘Naquele tempo ainda dse chamava Baixa Verde’’, principia. Veio a Natal com 5 anos de idade: a família se fixou na região de Lagoa Seca. ‘‘Era distante de tudo, era o último bairro de Natal. O último mesmo’’. Estudava - passou pelo então Grupo Escolar (hoje E E) Mascarenhas Homem e pelo Atheneu - , trabalhava - ajudando a tirar leite de vaca, entre outras coisas - e brincava.

Brincava, onde? O esporte entrou bem cedo em sua vida. Afinal, o que mais havia em Lagoa Seca era terreno. Aí era juntar os colegas e arranjar uma bola - ‘‘Formávamos times. As camisas eram feitas com sacos de farinha! As bolas eram de meia, com elas a gente aprendia a ter habilidade’’. Onde hoje funcionam um posto de gasolina (cruzamento da Bernardo Vieira com a Prudente de Morais) e o Hiper Bompreço (na Prudente), antigamente eram descampados, onde se batia bola à beça.

‘‘O ‘estádio’ do Palmeiras da (Avenida) 16 era onde está hoje o Hiper. Foi no Palmeiras, de ‘Seu Ciço’, cortador de carne nas Rocas, onde tive meu primeiro contato com a bola’’ - não apenas o contato, mas a primeira emoção: rapidamente se destacou na equipe, por ser exímio nos chutes com o pé esquerdo. ‘‘Foi ali que me tornei um louco pelo futebol’’. Também jogou pelo Ipiranga local, pelo Fluminense e pelo Bardahl. Até ajudou a criar uma equipe - a Sociedade Padre Miguelinho. Achou pouco: teve uma passagem rápida pelo Atlético, de João Machado e do técnico Coqueiro.

Emserv
Mas ele estudava, paralelamente ao futebol. Fez o curso de Administração, e em 1972 ‘‘meteu a cara’’ no mercado - criou a Emserv, a primeira empresa de segurança no Rio Grande do Norte. Não teve jeito, a coceira esportiva foi mais forte - ‘‘Aí eu criei, com os funcionários mesmo, a Associação Esportiva Emserv! Sempre acreditei no esporte como meio para motivar e formar o caráter’’.

A associação se embrenhou no futebol e no futsal. Ora jogava, ora dirigia. ‘‘Jogávamos contra a Guararapes, o Sesi, a Algodoeira São Miguel... até tínhamos planos maiores, de entrar em outras modalidades, mas naquele tempo outras federações amadoras estavam desorganizadas...’’

FNF
Um dia, e muitas competições depois, decidiu filiar a Emserv à Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF). Foi entre 1977 e 1978. Pouco depois, a FNF entrou em período eleitoral. ‘‘Havia uma chapa. Rui Soares para presidente e Manuel Leonardo Nogueira para vice. Não havia divisão amadora! Na hora da votação, conversei com os presidentes de clubes amadores, que logo lançaram minha candidatura’’ - candidatura à vice-presidência!

No fim das contas, teria os votos dos clubes amadores, contra os votos dos clubes profissionais. Na apuração... ‘‘14 votos contra 14! Empate! O presidente da FNF na época considerou que, pela idade, a vice-presidência era de Leonardo, mas apareceu um advogado dizendo que pelo estatuto deveria haver outra eleição...’’ Seria outro empate. De novo? Nããão... Tratou de se mexer mais um pouco. Deu certo. ‘‘Venci por dois votos de diferença, um de Ranilson (Cristino) e outro de ‘Seu’ Bastos (Santana)’’.

Algum tempo depois, Rui Soares teve que se afastar da FNF. ‘‘Sobrou para mim. Fiz o que pude. Mantive um bom relacionamento com ABC, América e Alecrim, mesmo eu sendo ABC...’’, confessou.

Seleção
Foi em seu período no comando da FNF que teve que cuidar do maior abacaxi possível e imaginável - um amistoso da Seleção Brasileira de futebol. Brasil x Alemanha Oriental. O primeiro e até hoje único jogo da Seleção por estes lados. Foi em janeiro de 1982.

Como? ‘‘A primeira grande dififuldade foi trazer o amistoso para cá’’. Todo mundo queria, aí numa reunião o ‘‘funil’’ apertou - apenas o Ceará, a Paraíba e o Rio Grande do Norte estavam no páreo. Tratou de conquistar a confiança do então presidente da CBF, Giulitte Coutinho. Considerou que o Ceará já havia recebido a Seleção antes, não fazia muito tempo, e a Paraíba não tinha condições para tanto. Por eliminação...

Com o sinal verde, teve que correr contra o tempo. Até algumas contas foram feitas para saber se o Machadão (a época Castelão), projetado para comportar até 40 mil pessoas, aguentaria receber mais de 50 mil pessoas. ‘‘Uma organização enorme. Segurança, transporte, hospedagem no Ducal, tudo feito nos mínimos detalhes. Depois me disseram que, de todos os lugares por odnde a Seleção havia passado, aqui foi onde teve a recepção mais bem organizada. Graças a Deus, deu tudo certo’’, conta, sem esquecer que para tanto contou com ajuda de muita gente, como o capitão Amaral. Foi negócio para subir pelas paredes, por dias. ‘‘Só me acalmei mesmo quando vi o avião da Seleção partindo. Pensei ‘Missão cumprida!’ e dei um suspiro...’’

Golpe de mestre
Da FNF ao ABC foi um pulo. ‘‘Eu era torcedor do ABC. Fui mais ou menos influenciado pelo meu pai’’. O alvinegro vinha de uma ‘‘seca’’ de quatro anos, só dava América! ‘‘Fui eleito em dezembro de 1982, e assim que começou 1983, renuniciei a FNF para assumir o ABC. Meu vice-presidente era Sebastião Medeiros’’.

Mas o negócio era evitar que o ABC levasse a quinta cacetada seguida. Teve uma idéia. ‘‘Convidei a imprensa, e pedi que formassem a seleção do campeoanto anterior (1982). Aí saíram nomes como Djalminha, Marinho, Silva, Dedé de Dora, Curió, Joel, Sérgio Poty...’’

Ninguém imaginava que aquela lista de jogadores fazia parte de um plano para tirar o ABC da má fase. Uma simplicidade desconcertante.‘‘Com todos estes nomes em mãos, o que fiz? Quem não era do ABC, saí contratando dos outros clubes’’. Por exemplo, Dedé de Dora veio do Potyguar de Currais Novos, e Silva (cuja negociação foi a mais complicada de todas) estava no futebol carioca, emprestado pelo América. Pronto, a seleção estava formada. ‘‘Com isto, o ABC ‘matou’ os adversários. Silva fez 36 gols; Marinho, 35; Dedé de Dora, que era meio-campo, fez 26; Djalminha fez 16... artilharia absoluta’’ - mais de 100 gols, exatos 117 pelas contas dele. O ABC tornou-se campeão em 1983 e bi em 1984, tudo a partir de uma inocente lista... um golpe de mestre.