Reportagens

Índice Reportagens

Diário de Natal
07
/01/2007
 

 

-

Rômulo ABC ontem, hoje e sempre

Uma vida dedicada ao ABC, desde as categorias de base.
Seu negócio era jogar do meio-campo para a frente. Tanto deu certo que esteve no bicampeonato de 1984. Quem? Paulo Rômulo Nogueira de Paiva - ou simplesmente o meia-atacante Rômulo.

‘‘Nasci no dia 7 de janeiro de 1963, aqui em Natal mesmo, na Policlínica do Alecrim, às 7h30’’, começa, preciso. ‘‘Morei no Alecrim até uns 12 anos, aí fui para Potilândia. Lá comecei a me destacar nas ‘peladas’, eu jogava no Alvorada, de Alcyr e Américo’’.

Foi aí que notou que seu negócio era atacar. ‘‘Sempre fui meia direita avançado e centroavante, de tanto jogar como ponta-de-lança... é, eu era atacante mesmo!’’, admite.

Sequência

Destacou-se a ponto de chamar a atenção do então massagista alvinegro Aluísio. ‘‘Ele me viu e me levou para jogar no infantil do ABC. Lá estavam Geraldo, Marquinhos - que mais tarde jogou futsal pelo América - , Mário Júnior, Artur, Fábio... quase todos ‘desviaram o caminho’, fui o único que ‘subi’. Aliás, hoje é muito raro ver aqui um jogador subir sequencialmente das bases até a categoria de seniores...’’ Era o ano de 1977, e o técnico dessa equipe era Reginaldo Lins - que pode ser encontrado hoje no Salesiano, a escola da Ribeira que já teve entre seus professores-técnicos, por exemplo, Eloy Simplício e Geraldo ‘‘Safena’’ Sá Filho, que já desfiaram suas memórias nesta mesma página...

Certo é que, sob o comando de Reginaldo, Rômulo conheceu seu primeiro título - em 1977 mesmo, o ABC foi campeão estadual da categoria infantil. ‘‘Aí ascendi para a equipe infanto-juvenil, também sob o comando de Reginaldo; e logo em seguida para os ‘juvenis’, que hoje chamam de juniores, com o técnico Maranhão, que foi volante do próprio ABC. Eu tinha apenas 15 anos! Estava lá, junto com Sílvio, Ademir, Sérgio Maria, Marquinhos, André...’’

Pelos juvenis, foi campeão em 1979, em decisão contra o América - ‘‘Gol de Gilmar’’ - e bicampeão em 1980. Como estava se destacando na categoria, um dos jogadores da equipe principal resolveu dar-lhe uma forcinha - ‘‘Foi o Jonas, que hoje é pastor’’. E aí...

Subindo!

...Rômulo estreou no meio da equipe principal em 1980. ‘‘ABC x Central-PE, jogo em Recife! O ABC venceu, 1 a zero, gol de Joel Celestino. Jonas ‘deu’ a vaga dele no time para mim. Aquele time tinha, além de Jonas e Joel, Caetano (goleiro), Jorge Luiz...’’ Detalhe: até aqui era atleta amador.

E veio 1981. Chegou a época do Serviço Militar. Escolheu a Marinha e, como todo marinheiro que se preze, passou uma temporada no Rio de Janeiro. Quem disse que ficou longe da bola? ‘‘Ah, joguei nas bases do Fluminense. E o Matsubara estava de olho em mim, fez vários contatos...mas, cadê que o ABC me liberava? Ainda assim, com passe preso ao ABC, joguei uns quatro jogos no Fluminense, que tinha Lula como técnico. Estive ao lado de Branco, Paulo Vítor, Cristóvão... não houve acordo com o ABC e voltei a Natal’’.

Voltou mesmo. E se profissionalizou pelo ‘‘Mais Querido’’ em 1982, sob comando de Erandyr Montenegro. ‘‘Mas o ABC perdeu aquele Estadual para o América’’. Logo, foi emprestado ao Potyguar de Currais Novos, início de 1983. ‘‘Era um bom time, vários jogadores do Potyguar vieram depois para o ABC, como Dedé de Dora. O técnico era Veto, e além de Dedé aquele time possuía Naldo, Givanilson, Gilvan, Zé Neto, Luciano...’’ O título ficou com o ABC, de onde recorda uma passagem curiosa - ‘‘O técnico era Erandyr (Montenegro). Certa vez o ABC perdia para o Potyguar, e ele comentou ‘Estamos perdendo por 1 a zero para um tal de... Dedé de Dora?!?’ Depois disso, para onde ia, Erandyr levava Dedé, e os dois semrpe eram campeões. Isso jamais me saiu da cabeça’’.

No ano seguinte, estava mais uma vez de volta ao alvinegro, que agora buscava o bi. Para os adversários, aquele ABC não era um time, era uma potência, uma monstruosidade, parecia bicho do outro mundo. Pudera: ‘‘O ABC estava armado com Dedé de Dora, Nicácio, Curió, Marinho Apolônio, Silva... quer mais? Para ‘segurar’ esse povo todo, Ferdinando (Teixeira) era o técnico’’. E não deu outra - ‘‘O ABC foi bi. Fui um dos artilheiros ao lado de Marinho e de Dedé de Dora’’. Curiosamente, sua imagem não aparece na foto oficial do título, por não ter jogado as duas partidas finais, opção vinda de cima...

Joelhos e pés no mundo

Entrou o ano de 1985. ‘‘O ABC esteve no Brasileiro. E eu junto. A mesma base de 1983-84, com mais uns reforços, como Valério e Arildo’’. Após o Brasileiro, passou uma temporada no Baraúnas - ‘‘Seis meses junto com Cláudio Oliveira,Gelson, Biro, João Chaves, Railton, Nonato - que nessa época andava de bicicleta - mais o técnico era Renê Dantas e o presidente Edmilson Teixeira’’.

Estava indo tudo bem, até que no finzinho do ano as coisas começaram a desgringolar. ‘‘Realmente, tive poucas contusões, apenas três na carreira, mas foram bem sérias’’. Um lance rápido, uma dividida, um drible, um adversário desequilibrado nas pernas, uma queda... e lá se foi o joelho direito de Rômulo - ‘‘O cara ‘sentou’ no meu joelho!’’. Um entorse, daqueles invocados.

Precisou afastou por um bom tempo para se recuperar. Começou a peregrinar por outros times. Em 1986 foi para o Auto Esporte-PB, juntando-se a Noronha, Esmerino e Valter (irmão de Hélcio Jacaré); em 1987, estava no Riachuelo, sob comando de Hélio Lopes, atuando ao lado de Mirabeau, Álvaro, Teo e Tito, entre outros - ‘‘Ainda fiz uns 7 ou 8 gols naquele campeonato’’.

No ano seguinte, estava de volta à Paraíba, agora pelo Botafogo - ‘‘Minha ida do RAC ao Botafogo foi facilitada por Garrinchha (já falecido), que era o presidente do RAC. Agora, analise: um Botafogo, que tinha potencial para pegar aualquer atleta de ABC ou América, vai buscar um cara lá de um time pequeno? Eu devia ter algum potencial...’’

Em 1990 estava no Alecrim - ‘‘Com Leto, Nito Galo Branco, Emanuel... o técnico era Marcos Pintado, e o preparador físico era Betinho! Fiquei pouco tempo’’. Mas nesse pouco tempo... ‘‘Tive outra contusão, agora no joelho esquerdo. De novo aquela perna ‘travada’, torta, uma dooooooooor...’’ Mais uma pausa para recuperação.

Ainda esteve em 1991 no Atlético - ‘‘Aquele mesmo, com Marinho, Sandoval, Tinho, Álvaro, Jorge Demolidor, Alberi, Danilo, o técnico Esmerino. E é verdade, cada jogador tinha um patrocínio diferente!’’; em 1992, o Guarabira-PB - ‘‘com Severinho, Lúcio Sabiá, Gilson Sergipano, Severinho... quase o grupo todo do Atlético’’ - o Matriz-AL - ‘‘do técnico Pompéia, falecido, ex-goleiro do América’’. Seu último clube foi o Vênus da Cidade da Espernaça, em 1993.

Histórias
ABC, década de 1980, cercado de “meninos bonzinhos‘‘ e ainda por cima tendo Furão - que está de volta a Natal - como massagista... não podia dar outra: Rômulo testemunhou muita presepada e até um, digamos, acidente aéreo... “Foi num jogo que o ABC estava indo para Manaus (AM). Durante o vôo, teve uma hora que Furão foi levar uns comprimidos para Jorge Demolidor... só que na hora houve uma turbulência, e lá Furão acabou derrubando tudo, água, comprimidos...‘‘

Além disto, havia um prato interessantíssimo na Vila Olímpica - o feijão com chuteira! “Explico, é um código conhecido dos atletas: a ’chuteira’, aqui, significa a carne. Uma vez, Joca chegou a Furão pedindo ’feijão com muita chuteira’. O que Furão fez? Colocou dois pares de chuteiras, bem grandes e velhas, ao lado do panelão do feijão. Joca ficou desconfiado...‘‘

E da vez que Lúcio Sabiá pôs o dinheiro para correr atrás dele? “Ele foi pegar um dinheiro lá no caixa, descalço. Pegou aquele bolo de notas, amarrou com um barbante nas costas e disse para o dinheiro - ’Olha, eu vivo correndo atrás de você... agora você vai é correr atrás de mim!’ ‘‘

Hoje é festa
Relembrando: hoje é 7 de janeiro. Então, Rômulo faz aniversário, 43 anos. E recebe como presente o reconhecimento que aguardava de longa data. ‘‘Hoje me sinto realizado, através deste reconhecimento hoje, pois fiz do futebol minha vida. É até uma glória! A falta de reconhecimento, lá atrás, me magoou...’’

E vai além. ‘‘Fiz o que idealizava na vida, desde menino queria ser jogador de futebol. Foi inclusive o sonho de meu pai (Paulo Xavier de Paiva), ele queria me ver jogador profissional, mas faleceu quando eu tinha 11 anos’’ - e assim a mãe, ‘‘Dona’’ Maria Dantas Nogueira de Paiva, hoje com 76 anos, teve que se desdobrar em dois.

Além disto, não é qualquer um que concretiza um sonho por inteiro, e por tanto tempo. ‘‘Sempre fui torcedor do ABC, é até uma satisfação ter sido atleta do ABC que me projetou. Hoje sou corretor, mas ainda tem muita gente que lembra de mim do tempo que eu era jogador’’ E se arrisca até a um ‘‘último pedido’’, tal a paixão que tem pelo clube - ‘‘Quando eu morrer, quero estar com a bandeira do ABC!’’.

Vendendo seguros para automóveis
Mas, voltando à carreira... falávamos do Vênus, da Cidade da Esperança - ‘‘O técnico era Armando Viana (aquele mesmo do Jogo Aberto, da Rádio Poti); ali jogaram o goleiro Pavão, Adalberto, Tião, Leto, Clóvis, Dedé de Dora...’’.

Aí foi procurar algo além do futebol. ‘‘Trabalhei na Transbrasil, lá no Aeroporto (Augusto Severo). Também fui vendedor de pronta-entrega’’. Desde 1997 está na área de seguros, obra de um certo Edílio Lobo - Rômulo está hoje na Homer Corretora, na parte de seguros para automóveis. Mas não abandonou o futebol por inteiro. Tanto, que continua defendendo o ABC - precisamente, o ABC-VarigLog, no Estadual de Masters.

E a família? Casou-se há 10 anos com Lilian Cilene Lima da Silva - e veio uma filha: Nayara Ruhany, 8 anos.

Bate-bola
O Poti - Consta que você aguarda até hoje uma placa devido a um jogo em Mossoró...

Rômulo - Foi uma passagem que tive no Baraúnas, em 1985. Jogo contra o Potiguar de Mossoró. Perdíamos, 1 a zero, quando Nonato (hoje no Cruzeiro-MG), pela direita, cruzou para Carlinhos que passou para mim pela esquerda. Chutei de voleio, quase fora da área. Baraúnas 1 a 1. A imprensa de Mossoró considerou que aquele era um gol digno de placa. Só que o tempo passou, e esqueceram de fazer a tal placa... Se alguém lembrar da placa, por favor, estou aqui para recebê-la...

E o gol mais bonito?

Foi um Riachuelo 2 x 1 ABC. Eu jogava no Riachuelo, fiz um dos gols: de voleio, meia-bicicleta na área. O outro gol foi de Mirabeau. Aquele foi o meu gol mais bonito.

Mas seu grande jogo foi...

.. um ABC x América no JL! Joguei ao lado de Marinho (Apolônio) e Dedé (de Dora). O ABC venceu esse jogo, 2 a 1. Fiz o segundo gol, de cobertura sobre Eugênio!

Nomes, nomes, nomes... Com quem você tinha mais afinidade? E os amigos? Quem você apontaria como um grande técnico? E como atleta?

Sempre tive muita afinidade com Dedé de Dora. Como grandes amigos, Álvaro e Jonas. Eu considero Ferdinando Teixeira um grande técnico; e quanto aos grandes jogadores, cito Alberi e Dedé de Dora.

O que você acha do trabalho que vem sendo feito atualmente no ABC?

Olha, muitos por aí criticam (o presidente) Judas Tadeu. Mas na condição de ex-atleta eu o vejo como um grande dirigente, pois tem se dedicado e ainda se dedica às coisas do ABC, e merece todo apoio da torcida e da imprensa.