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Diário de Natal 03/09/2006
Da Equipe de O POTI

 

História e trajetória de um ídolo

Hoje com 61 anos - assim garante - Danilo Menezes não sabe o que é ficar longe do mundo esportivo, onde foi atacante.
Certa vez, o ABC decidiu fazer uma manobra arriscada, quase suicida. Era o início da década de 1970: o alvinegro “importou‘‘ quase que o time inteiro, de olho nos vários campeonatos (incluindo o nascente Campeonato Nacional, atual Brasileiro). O time entrou para a história. E ele estava lá - suou para se fixar na equipe, mas depois que conseguiu ganhou até a admiração dos adversários. É assim até hoje. Quem? “Danilo Menezes Nuñez. Nasci no dia 17 de fevereiro de 1945, em Rivera (Uruguai)‘‘, conta o próprio.

O filho de “Seu‘‘ Ademar e “Dona‘‘ Dorotéia - o sétimo de um grupo de oito irmãos - teve uma infância interessante em Rivera. “Estudei no Colégio municipal José Artigas, até a sexta série. O sistema de ensino lá é diferente do daqui: o Uruguai usa o sistema francês, onde os estuantes seguem direto às universidades‘‘.

Por volta de 1960, o futebol atavessou sua vida de vez. De vez? “Coincidência, eu jogava perto do estádio do Oriental FC, time da primeira divisão. Ficava atrás do gol, pegando as bolas para os atacantes. Sim, era o gandula. Eu morava bem pertinho, do outro lado da cerca do estádio, e observava os atletas do Oriental‘‘.

Um belo dia, faltou jogador no Oriental. Os atletas saíram convidando quem estava ali por perto - e Danilo aceitou. “Fui para a ponta direita‘‘. Aí veio a surpresa. “O técnico da equipe gostou do meu jogo, e me convidou para fazer parte do time mesmo‘‘. Só havia um pequeno detalhe: “Dona‘‘ Dorotéia não gostava muito dessa história de seu menino Danilo virar jogador de futebol. “Eu jogava escondido dela...‘‘, confessa.

“Ela não queria que eu jogasse. O acordo só saiu depois de muita conversa enre ela e Bittencourt‘‘ - este Bittencourt era presidente do Oriental, e de quebra era o chefe da mãe de Danilo no trabalho.
Fim das contas, Danilo estava no Oriental FC. Mas a estréia foi... quer dizer, não foi. “Eu já entrei direto, para jogar no fim de semana. O bairro todo sabia! No dia do jogo, quando fui pegar minha roupa no vestiário, comecei a tremer!!!‘‘. Ficou emocionado, imprssionado, para lá de nervoso, quase teve um troço. “Tremi!!! Nem joguei, dali voltei para casa. O resto da semana não fui ao clube...‘‘ Estava fora? De jeito nenhum. Ajoelhou, agora teria que rezar. “Num domingo, o Bittencourt foi lá em casa. Aí, sim, estreei na ponta esquerda‘‘.

Nisso, chegou o fim do ano. “Havia uma competição parecida com o Matutão (campeonato interiorano) daqui. Os primeiros classificados disputavam a fase final em Montevidéu. E fiz parte da seleção de minha região como meia esquerda‘‘. Não deu outra: quando viu, estava em Montevidéu, jogando a fase final.

Nacional

Foi quando chamou a atenção de dirigentes do Nacional de Montevidéu. Tanto, que no dia de seu aniversário de 16 anos levou um baita susto: “Chegaram lá em casa o Bittencourt e o presidente do Nacional, dizendo que eu tinha que ir naquele mesmo dia a Montevidéu! Eu estava comendo bolo com suco, ao lado da minha família e tudo...‘‘

Não podia dar outra: o bate-boca foi grande. “Mas fui a Montevidéu. Fui morar lá. Nunca havia saído de Rivera para morar em outro lugar‘‘. Passou a viver no CT do Nacional. “Estavam lá jogadores como Escalada, Manicera (que jogava como central, e depois jogou no Flamengo-RJ), o goleiro Souza (que depois jogou no Palmeiras-SP)... eles me tratavam na consideração, e comecei a treinar entre os profissionais‘‘

Começou a aparecer nas manchetes dos jornais. E aí o menino se abestalhou. “Primeiro, as manchetes. Em seguida, as noitadas. A cada noite que passava, meu futebol diminuía‘‘.

Zezé Moreira

Neste instante, entrou em sua vida a figura do técnico Zezé Moreira. “Eu já estava para ser dispensado do clube, quando chegou lá o Zezé. Seria o primeiro treino dele, e o último meu... mas ele mandou que suspendessem a minha dispensa, e me disse ’Olha, não quero mais ver você envolvido em noitadas. E a partir de agora você vai morar sozinho em um apartamento, e vir todo dia aqui...’‘‘

Agarrou a segunda chance que estava à sua frente. “Fui morar no bairro de Pocitos, e depois voltei ao time titular. Em 1963 tornei-me campeão regional e o time foi vice-campeão das Américas‘‘. Permaneceu no Nacional até 1965, tempo suficiente para conquistar o bicampeonato regional e disputar algumas Copas da Espanha.

Quando viu, estava na Seleção Uruguaia, ajudando a equipe nas Eliminatórias para a Copa de 1966 (Inglaterra) - ao lado de atletas como o goleiro Mazurkiewicz, Manicera, Troche, Cortez, Pedro Rocha, Hector Silva, Pablo Frián, entre outros, sob o comando do técnico Ondino Vieira. O time se classificou - Mas Danilo nem chegou a ir à Inglaterra...

Vasco

... porque em outubro de 1965 foi levado por Zezé Moreira ao Vasco-RJ. ‘‘Cheguei ao Rio no dia 28 de outubro de 1965. O Vasco disputava a Taça Brasil, mas eu estreei num jogo contra o Fluminense em São Januário: venceu o Fluminense, 1 a zero. O Vasco tinha, por exemplo, o goleiro Gainete, Brito, Fontana, Oldair, Maranhão, Lorico, Zezinho, Célio (que era ponta-de-lança), Mário Tilico (pai do jogador Dinei, do Corinthians), Da Silva...’’

O jogo seguinte foi a semifinal da Taça Brasil - Vasco x Náutico-PE. ‘‘Vencemos, 1 a zero, gol de Célio depois de fazer ‘tabela’ comigo’’. O Vasco estava na fase final - contra o Santos-SP! ‘‘Contra Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé... no jogo de ida, na Vila Belmiro, o Santos venceu (1 a zero); na volta também deu Santos, no Maracanã (1 a zero)’’.

Do período no Vasco - onde, entre outras partidas, foi testemunha privilegiada do milésimo gol de Pelé (era titular no jogo Vasco 1 x 2 Santos no Maracanã, na noite de 19 de novembro de 1969) - lembra do grande jogo de sua vida. ‘‘Vasco x Flamengo, reestréia de Garrincha. Ele já andava com problemas no joelho, e estava sendo preparado durante três meses para estrear pelo Flamengo. Foi uma amistoso numa quarta-feira, Todo mundo no Maracanã estava torcendo pelo Garrincha, mas ele não jogou nem 15 minutos, Fontana acertou-lhe o joelho’’. Um crime sem perdão. ‘‘A torcida em peso passou a chamar Fontana de ‘Assassino!’... mais tarde, ele foi praticamente dado ao Cruzeiro’’.

Célio de Souza

Muitos e muitos jogos depois pelo Vasco, e eis que Danilo muda de ares em 1972. Destino? O ABC. Haja discussão. ‘‘Eu estava brigado com o Vasco nesse período’’. Precisamsnte, ele e o técnico Evaristo de Macedo não se entendiam nem por decreto. ‘‘Cheguei para um dirigente, o João Agartino, e disse ‘Ou Evaristo ou eu!’ Adivinhe para quem sobrou...’’

Permaneceu na ‘‘geladeira’’, até que um técnico chamado Célio de Souza se mudou do Rio de Janeiro para Natal, a convite do ABC. Célio reuniu os jogadores aque conhecia em terras fluminenses. ‘‘Ele me perguntou ‘Quer ir para Natal?’ Respondi ‘Quero, mas o Vasco não me libera para time nenhum...’’’ Mais tarde, o dirigente alvinegro Severo Câmara foi ao Rio. Observou Danilo. ‘‘Ele pareceu não gostar de mim e me disse ‘Danilo, não vou lhe levar, você é muito velho, a imprensa vai pegar no meu pé...’ Aí respondi ‘Quantos anos o senhor acha que tenho? Pois tenho 27’ ‘Mas não vou lhe levar...’’’

No dia seguinte à conversa com Severo Câmara, foi a vez de Célio - que queria Danilo de qualquer jeito. Severo repetiu a ladainha. Muita discussão depois... ‘‘Fiz o seguinte negócio: iria para treinar e quando fosse para jogar eu assinaria o contrato. Iria pelo mesmo valor pago aos outros’’.

Volta por cima

E assim foi: todos os atletas do ABC vieram a Natal já contratados, menos ele. E o que Severo Câmara temia aconteceu - ‘‘Os radialistas aqui caíram de pau’’. Mas o tempo iria jogar a favor de Danilo. ‘‘Eu treinava e dormia no antigo Ceiatê (hoje Grupamento de Fuzileiros Navais, nas Quintas). Pela manhã eu treinava sozinho, tinha que recuperar a forma; à tarde, tinha os treinos com o grupo do ABC’’.

Passaram-se dois jogos. ‘‘Primeiro, ABC x CRB; depois, teve ABC x Nacional-AM, o ABC vencia por 3 a zero, mas no final ficou 3 a 3. E a imprensa no pé. Aí eu disse ‘Só volto a jogar quando eu estiver 100%!’’’ E chegou a vez do alvinegro enfrentar o Flamengo-RJ. ‘‘O Flamengo, tendo Zagallo como técnico, vinha vencendo todo mundo. Aí eu disse ‘Estou pronto, esse é o meu jogo’’’. Resultado? ABC 0 x 0 Flamengo, Zagallo arrancando os cabelos, Alberi foi o grande nome do jogo (tanto, que depois dirigentes do Flamengo queriam saber o valor do passe do ‘‘Rei do Machadão’’), e Danilo ganhou o respeito dos radialistas. Pouco depois voltou ao Rio de Janeiro - ‘‘Na festa de despedida, teve radialista me pedindo desculpas pelo que havia dito antes!!’’

E chega o ano de 1973. Uma idéia se fixou na cabeça dos dirigentes - trazer o ‘‘Gringo’’ de volta. ‘‘A junta governativa (Zeca Passos, Bira Rocha, José Prudêncio Sobrinho e Aluísio Bezerra) queria fazer um grande time. O clube havia acabado de vender Soares, então o time estava sem pontas. Eu passava o Carnaval no Rio e convidei Morais. Aluísio mandou as passagens. Chegamos numa quinta-feira; no fim de semana teve ABC x Alecrim, pela Taça Cidade do Natal. Deu ABC, 1 a zero, gol de Morais. Para eu e ele foi o máximo!’’

Quando o atleta se torna livro
Daí em diante, não saiu mais do ABC. Foram oito longos anos e um fato raro - ‘‘Acabei me identificando com todas as torcidas. Hoje, sou reconhecido por todos; fiz muita coisa boa, fiz e dei alegrias à nação ABCdista’’.

Um dia, tinha que parar. Danilo pendurou as chuteiras em 1982, depois de uma passagem rápida pelo Botafogo-PB. E agora? Foi parar na então Fundação de Esportes do Natal, a antiga Fenat (hoje Secretaria de Esporte e Lazer da Prefeitura do Natal - PMN-SEL). Achou pouco. ‘‘Treinei o Treze-PB em 1983, o ABC em 1993 e o Alecrim em 1994’’. Ainda foi pouco: foi até professor-técnico de escola - no caso, o H. Castriciano, em 1999.

Tantas histórias presenciou que ganhou direito a uma biografia, escrita por Rubens Lemos Filho - ‘‘chefe’’ (e admirador daqueles de se rasgar pelo ídolo!) de Danilo no Rio Ave, equipe de futebol society e de areia que já reuniu uma respeitável série de títulos. O ‘‘Gringo’’, ali, é o técnico, há uns 12 anos.

E a família? ‘‘Sou casado e muito bem-casado, tenho filhos e muitos amigos’’, responde direto, olhando para ‘‘Mestre’’ Tarcísio, um de seus colegas de repartição. Danilo casou-se com Maria Fernanda, assistente social, e teve dois filhos - Fernando Luiz (22 anos, aluno de Engenharia Civil) e Marília (20 anos, estudante de Direito). ‘‘Netos, por enquanto não... vamos com calma!’’