|
Hoje com 61 anos
- assim garante
- Danilo Menezes
não sabe o que é
ficar longe do
mundo esportivo,
onde foi
atacante.
Certa
vez, o ABC
decidiu fazer
uma manobra
arriscada, quase
suicida. Era o
início da década
de 1970: o
alvinegro
“importou‘‘
quase que o time
inteiro, de olho
nos vários
campeonatos
(incluindo o
nascente
Campeonato
Nacional, atual
Brasileiro). O
time entrou para
a história. E
ele estava lá -
suou para se
fixar na equipe,
mas depois que
conseguiu ganhou
até a admiração
dos adversários.
É assim até
hoje. Quem?
“Danilo Menezes
Nuñez. Nasci no
dia 17 de
fevereiro de
1945, em Rivera
(Uruguai)‘‘,
conta o próprio.
O filho de
“Seu‘‘ Ademar e
“Dona‘‘ Dorotéia
- o sétimo de um
grupo de oito
irmãos - teve
uma infância
interessante em
Rivera. “Estudei
no Colégio
municipal José
Artigas, até a
sexta série. O
sistema de
ensino lá é
diferente do
daqui: o Uruguai
usa o sistema
francês, onde os
estuantes seguem
direto às
universidades‘‘.
Por volta de
1960, o futebol
atavessou sua
vida de vez. De
vez?
“Coincidência,
eu jogava perto
do estádio do
Oriental FC,
time da primeira
divisão. Ficava
atrás do gol,
pegando as bolas
para os
atacantes. Sim,
era o gandula.
Eu morava bem
pertinho, do
outro lado da
cerca do
estádio, e
observava os
atletas do
Oriental‘‘.
Um belo dia,
faltou jogador
no Oriental. Os
atletas saíram
convidando quem
estava ali por
perto - e Danilo
aceitou. “Fui
para a ponta
direita‘‘. Aí
veio a surpresa.
“O técnico da
equipe gostou do
meu jogo, e me
convidou para
fazer parte do
time mesmo‘‘. Só
havia um pequeno
detalhe: “Dona‘‘
Dorotéia não
gostava muito
dessa história
de seu menino
Danilo virar
jogador de
futebol. “Eu
jogava escondido
dela...‘‘,
confessa.
“Ela não queria
que eu jogasse.
O acordo só saiu
depois de muita
conversa enre
ela e
Bittencourt‘‘ -
este Bittencourt
era presidente
do Oriental, e
de quebra era o
chefe da mãe de
Danilo no
trabalho.
Fim das contas,
Danilo estava no
Oriental FC. Mas
a estréia foi...
quer dizer, não
foi. “Eu já
entrei direto,
para jogar no
fim de semana. O
bairro todo
sabia! No dia do
jogo, quando fui
pegar minha
roupa no
vestiário,
comecei a
tremer!!!‘‘.
Ficou
emocionado,
imprssionado,
para lá de
nervoso, quase
teve um troço.
“Tremi!!! Nem
joguei, dali
voltei para
casa. O resto da
semana não fui
ao clube...‘‘
Estava fora? De
jeito nenhum.
Ajoelhou, agora
teria que rezar.
“Num domingo, o
Bittencourt foi
lá em casa. Aí,
sim, estreei na
ponta
esquerda‘‘.
Nisso, chegou o
fim do ano.
“Havia uma
competição
parecida com o
Matutão
(campeonato
interiorano)
daqui. Os
primeiros
classificados
disputavam a
fase final em
Montevidéu. E
fiz parte da
seleção de minha
região como meia
esquerda‘‘. Não
deu outra:
quando viu,
estava em
Montevidéu,
jogando a fase
final.
Nacional
Foi quando
chamou a atenção
de dirigentes do
Nacional de
Montevidéu.
Tanto, que no
dia de seu
aniversário de
16 anos levou um
baita susto:
“Chegaram lá em
casa o
Bittencourt e o
presidente do
Nacional,
dizendo que eu
tinha que ir
naquele mesmo
dia a
Montevidéu! Eu
estava comendo
bolo com suco,
ao lado da minha
família e
tudo...‘‘
Não podia dar
outra: o
bate-boca foi
grande. “Mas fui
a Montevidéu.
Fui morar lá.
Nunca havia
saído de Rivera
para morar em
outro lugar‘‘.
Passou a viver
no CT do
Nacional.
“Estavam lá
jogadores como
Escalada,
Manicera (que
jogava como
central, e
depois jogou no
Flamengo-RJ), o
goleiro Souza
(que depois
jogou no
Palmeiras-SP)...
eles me tratavam
na consideração,
e comecei a
treinar entre os
profissionais‘‘
Começou a
aparecer nas
manchetes dos
jornais. E aí o
menino se
abestalhou.
“Primeiro, as
manchetes. Em
seguida, as
noitadas. A cada
noite que
passava, meu
futebol
diminuía‘‘.
Zezé Moreira
Neste instante,
entrou em sua
vida a figura do
técnico Zezé
Moreira. “Eu já
estava para ser
dispensado do
clube, quando
chegou lá o
Zezé. Seria o
primeiro treino
dele, e o último
meu... mas ele
mandou que
suspendessem a
minha dispensa,
e me disse
’Olha, não quero
mais ver você
envolvido em
noitadas. E a
partir de agora
você vai morar
sozinho em um
apartamento, e
vir todo dia
aqui...’‘‘
Agarrou a
segunda chance
que estava à sua
frente. “Fui
morar no bairro
de Pocitos, e
depois voltei ao
time titular. Em
1963 tornei-me
campeão regional
e o time foi
vice-campeão das
Américas‘‘.
Permaneceu no
Nacional até
1965, tempo
suficiente para
conquistar o
bicampeonato
regional e
disputar algumas
Copas da
Espanha.
Quando viu,
estava na
Seleção
Uruguaia,
ajudando a
equipe nas
Eliminatórias
para a Copa de
1966
(Inglaterra) -
ao lado de
atletas como o
goleiro
Mazurkiewicz,
Manicera, Troche,
Cortez, Pedro
Rocha, Hector
Silva, Pablo
Frián, entre
outros, sob o
comando do
técnico Ondino
Vieira. O time
se classificou -
Mas Danilo nem
chegou a ir à
Inglaterra...
Vasco
... porque em
outubro de 1965
foi levado por
Zezé Moreira ao
Vasco-RJ.
‘‘Cheguei ao Rio
no dia 28 de
outubro de 1965.
O Vasco
disputava a Taça
Brasil, mas eu
estreei num jogo
contra o
Fluminense em
São Januário:
venceu o
Fluminense, 1 a
zero. O Vasco
tinha, por
exemplo, o
goleiro Gainete,
Brito, Fontana,
Oldair,
Maranhão, Lorico,
Zezinho, Célio
(que era
ponta-de-lança),
Mário Tilico
(pai do jogador
Dinei, do
Corinthians), Da
Silva...’’
O jogo seguinte
foi a semifinal
da Taça Brasil -
Vasco x
Náutico-PE.
‘‘Vencemos, 1 a
zero, gol de
Célio depois de
fazer ‘tabela’
comigo’’. O
Vasco estava na
fase final -
contra o
Santos-SP!
‘‘Contra Dorval,
Mengálvio,
Coutinho,
Pelé... no jogo
de ida, na Vila
Belmiro, o
Santos venceu (1
a zero); na
volta também deu
Santos, no
Maracanã (1 a
zero)’’.
Do período no
Vasco - onde,
entre outras
partidas, foi
testemunha
privilegiada do
milésimo gol de
Pelé (era
titular no jogo
Vasco 1 x 2
Santos no
Maracanã, na
noite de 19 de
novembro de
1969) - lembra
do grande jogo
de sua vida.
‘‘Vasco x
Flamengo,
reestréia de
Garrincha. Ele
já andava com
problemas no
joelho, e estava
sendo preparado
durante três
meses para
estrear pelo
Flamengo. Foi
uma amistoso
numa
quarta-feira,
Todo mundo no
Maracanã estava
torcendo pelo
Garrincha, mas
ele não jogou
nem 15 minutos,
Fontana
acertou-lhe o
joelho’’. Um
crime sem
perdão. ‘‘A
torcida em peso
passou a chamar
Fontana de
‘Assassino!’...
mais tarde, ele
foi praticamente
dado ao
Cruzeiro’’.
Célio de Souza
Muitos e muitos
jogos depois
pelo Vasco, e
eis que Danilo
muda de ares em
1972. Destino? O
ABC. Haja
discussão. ‘‘Eu
estava brigado
com o Vasco
nesse período’’.
Precisamsnte,
ele e o técnico
Evaristo de
Macedo não se
entendiam nem
por decreto.
‘‘Cheguei para
um dirigente, o
João Agartino, e
disse ‘Ou
Evaristo ou eu!’
Adivinhe para
quem sobrou...’’
Permaneceu na
‘‘geladeira’’,
até que um
técnico chamado
Célio de Souza
se mudou do Rio
de Janeiro para
Natal, a convite
do ABC. Célio
reuniu os
jogadores aque
conhecia em
terras
fluminenses.
‘‘Ele me
perguntou ‘Quer
ir para Natal?’
Respondi ‘Quero,
mas o Vasco não
me libera para
time
nenhum...’’’
Mais tarde, o
dirigente
alvinegro Severo
Câmara foi ao
Rio. Observou
Danilo. ‘‘Ele
pareceu não
gostar de mim e
me disse
‘Danilo, não vou
lhe levar, você
é muito velho, a
imprensa vai
pegar no meu
pé...’ Aí
respondi
‘Quantos anos o
senhor acha que
tenho? Pois
tenho 27’ ‘Mas
não vou lhe
levar...’’’
No dia seguinte
à conversa com
Severo Câmara,
foi a vez de
Célio - que
queria Danilo de
qualquer jeito.
Severo repetiu a
ladainha. Muita
discussão
depois... ‘‘Fiz
o seguinte
negócio: iria
para treinar e
quando fosse
para jogar eu
assinaria o
contrato. Iria
pelo mesmo valor
pago aos
outros’’.
Volta por cima
E assim foi:
todos os atletas
do ABC vieram a
Natal já
contratados,
menos ele. E o
que Severo
Câmara temia
aconteceu - ‘‘Os
radialistas aqui
caíram de pau’’.
Mas o tempo iria
jogar a favor de
Danilo. ‘‘Eu
treinava e
dormia no antigo
Ceiatê (hoje
Grupamento de
Fuzileiros
Navais, nas
Quintas). Pela
manhã eu
treinava
sozinho, tinha
que recuperar a
forma; à tarde,
tinha os treinos
com o grupo do
ABC’’.
Passaram-se dois
jogos.
‘‘Primeiro, ABC
x CRB; depois,
teve ABC x
Nacional-AM, o
ABC vencia por 3
a zero, mas no
final ficou 3 a
3. E a imprensa
no pé. Aí eu
disse ‘Só volto
a jogar quando
eu estiver
100%!’’’ E
chegou a vez do
alvinegro
enfrentar o
Flamengo-RJ. ‘‘O
Flamengo, tendo
Zagallo como
técnico, vinha
vencendo todo
mundo. Aí eu
disse ‘Estou
pronto, esse é o
meu jogo’’’.
Resultado? ABC 0
x 0 Flamengo,
Zagallo
arrancando os
cabelos, Alberi
foi o grande
nome do jogo
(tanto, que
depois
dirigentes do
Flamengo queriam
saber o valor do
passe do ‘‘Rei
do Machadão’’),
e Danilo ganhou
o respeito dos
radialistas.
Pouco depois
voltou ao Rio de
Janeiro - ‘‘Na
festa de
despedida, teve
radialista me
pedindo
desculpas pelo
que havia dito
antes!!’’
E chega o ano de
1973. Uma idéia
se fixou na
cabeça dos
dirigentes -
trazer o
‘‘Gringo’’ de
volta. ‘‘A junta
governativa (Zeca
Passos, Bira
Rocha, José
Prudêncio
Sobrinho e
Aluísio Bezerra)
queria fazer um
grande time. O
clube havia
acabado de
vender Soares,
então o time
estava sem
pontas. Eu
passava o
Carnaval no Rio
e convidei
Morais. Aluísio
mandou as
passagens.
Chegamos numa
quinta-feira; no
fim de semana
teve ABC x
Alecrim, pela
Taça Cidade do
Natal. Deu ABC,
1 a zero, gol de
Morais. Para eu
e ele foi o
máximo!’’
Quando o
atleta se torna
livro
Daí em diante,
não saiu mais do
ABC. Foram oito
longos anos e um
fato raro -
‘‘Acabei me
identificando
com todas as
torcidas. Hoje,
sou reconhecido
por todos; fiz
muita coisa boa,
fiz e dei
alegrias à nação
ABCdista’’.
Um dia, tinha
que parar.
Danilo pendurou
as chuteiras em
1982, depois de
uma passagem
rápida pelo
Botafogo-PB. E
agora? Foi parar
na então
Fundação de
Esportes do
Natal, a antiga
Fenat (hoje
Secretaria de
Esporte e Lazer
da Prefeitura do
Natal - PMN-SEL).
Achou pouco.
‘‘Treinei o
Treze-PB em
1983, o ABC em
1993 e o Alecrim
em 1994’’. Ainda
foi pouco: foi
até
professor-técnico
de escola - no
caso, o H.
Castriciano, em
1999.
Tantas histórias
presenciou que
ganhou direito a
uma biografia,
escrita por
Rubens Lemos
Filho -
‘‘chefe’’ (e
admirador
daqueles de se
rasgar pelo
ídolo!) de
Danilo no Rio
Ave, equipe de
futebol society
e de areia que
já reuniu uma
respeitável
série de
títulos. O
‘‘Gringo’’, ali,
é o técnico, há
uns 12 anos.
E a família?
‘‘Sou casado e
muito
bem-casado,
tenho filhos e
muitos amigos’’,
responde direto,
olhando para
‘‘Mestre’’
Tarcísio, um de
seus colegas de
repartição.
Danilo casou-se
com Maria
Fernanda,
assistente
social, e teve
dois filhos -
Fernando Luiz
(22 anos, aluno
de Engenharia
Civil) e Marília
(20 anos,
estudante de
Direito).
‘‘Netos, por
enquanto não...
vamos com
calma!’’ |