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Diário de Natal 23/04/2006
Da Equipe de O POTI

 

Do Independente para o auge no ABC

Tinho relembra as peladas do campo do Força e Luz, o futsal de Olinto Galvão e até o Independente de Edival .

Natal, 9 de abril de 1959. Bem ali, no Centro, nascia um certo Carlos Maurício Ribeiro dos Santos - que se fez atacante, aprontando no ABC e no Náutico-PE. Por estes lados, esteve entre os ‘‘novos’’ promovidos pelo então técnico alvinegro Valdemar Carabina; em terras pernambucanas foi reserva (digamos) de luxo de Reinaldo Francisco e Dadá.

‘‘Não nasci em maternidade, foi de parteira... a infância foi tranquila, com muita pelada!’’, conta. ‘‘Batíamos bola no campo do antigo Força e Luz, naquele tempo de vez em quando ficava alagado. Depois, joguei na Santa Cruz da Bica. É, ali na cruz mesmo!’’ - para quem não sabe, é uma praça que há ao pé da Cidade Alta, próximo ao escritório da Cosern, que tem justamente por característica um cruzeiro, antigo limite sul da cidade no século XVI. Mas esta é uma outra história!

ABC
Aos 14 anos, já estava no ABC. ‘‘Ninguém me descobriu. Na verdade, saiu num jornal que iria haver um peneirão no ABC. Naquele tempo o ABC ficava em Morro Branco. O técnico (dos profissionais) era João Avelino, e o dos juvenis era Maranhão. Passei!’’

Naturalmente, ingressou na equipe de juniores. Quando viu, já estava entre os profissionais. ‘‘Foi tudo rápido demais. Maranhão e Valdemar Carabina (o novo técnico dos profisisonais) deram a chance. Maranhão me indicou a Carabina, que confiou em mim e me botou para jogar. Foi um bocado de gente nesse tempo: Berg, Gelson, Arié, Willame, Dão...’’ O ano? 1976, aproximadamente. ‘‘Sou péssimo com datas’’, confessa.
Se bem que lembra do gostinho da glória. Foi em 1978. Uma final inesquecível. ‘‘Fui campeão. Na decisão, ABC x América, o ABC jogava pelo empate. Perdíamos por 1 a zero, quando Ubirani falhou e passei-lhe a bola entre as pernas. ABC 1 a 1’’.

Náutico
Tinho permaneceu no alvinegro até 1979. ‘‘Nesse ano fui para o Náutico-PE. Cheguei lá através de Pedrinho da Dom Vital, um ABCdista que ajudou vários atletas’’. O início e o fim de sua temporada, cerca de um ano, na equipe pernambucana não foram lá muito agradáveis... mas, primeiro, o início - ‘‘Primeiro, passei dois meses sem poder jogar, por que não havia chegado a papelada de minha transferência! Só quando chegou um técnico chamado Brecha foi que o problema foi resolvido’’.

Passado este problema inicial, tornou-se o que se chama hoje de ‘‘reserva de luxo’’. ‘‘No ataque tinham Reinaldo (Francisco, seu conhecido do ABC desde 1976) e Dadá. Com esse dois era muito difícil alguém entrar! Também tinha outro jogador no ataque, Marquinhos, na ponta esquerda. Eu entrava mais no lugar de Marquinhos, mas sempre que saía um deles eu assumia. Era preciso muito talento mesmo para substituí-los! Praticamente, eu entrava em todas as partidas, apesar de não ser titular’’.

E a saída? ‘‘Não fiquei no Náutico. Vou explicar o porquê’’. Houve mudança na direção do clube; e os novos dirigentes - picuinha! - não queriam ouvir falar de nada da administracão anterior...‘‘Wilson Campos (o novo presidente) disse mesmo na minha cara que não queria nada com gente da ‘outra diretoria’. E nem pagaria salário!’’ Claro, a pendenga acabou na Justiça. ‘‘Só não passei fome porque comia na casa de Reinaldo’’. E, algum tempo (e uns ‘‘borrachudos’’) depois, recebeu tudo que o clube lhe devia.

Foto: Jogando pelo ABC, contra o Riachuelo, enfrentando Paulinho, um ex-colega de rua e do Independente da Cidade Alta.
A parada e a parada
Voltou ao ABC em 1980. ‘‘Voltei, trazido por Ferdinando Teixeira. Nem vinha para jogar bola mais...’’. Ainda assim, sobrou talento pelas pontas até 1985, quando pendurou as chuteiras. ‘‘Deixei de jogar, disseram que foi porque me machucuquei, não foi isso. Eu estava me sentido desvalorizado’’ - ficou azedo de ver ‘‘amigo-de-técnico’’, com menos intimidade com a bola que ele e outros atletas da casa, assumindo vaga de titular, e doía-lhe o tratamento diferente às pratas-da-casa - ‘‘Sabe o que é renovar o contrato recebendo o mesmo valor do ano anterior?’’ - isso num tempo em que a inflação ‘‘comia’’ tudo, a ponto de se precisar de um saco cheio de dinheiro para comprar um mero quilo de feijão (alguém lembra do samba de Beth Carvalho?), e tendo que comprar logo senão a grana não daria para comprar uma balinha-xaxá... (hoje, procurando bem, dá para encontrar um bom quilo de feijão carioquinha a partir de R$ 1,90)

Mas, quem disse que deixaram Tinho quieto? ‘‘Ainda teve o Atlético. Ranilson Cristino me chamou para lá. Didi Duarte e Ivan Silva estavam tentando formar um time com ex-atletas, e o técnico era Esmerino. Só tinha cobra no time - Ramos, eu, Gelson, Alberi...’’ Depois disso é que realmente parou com o futebol profissional. ‘‘Eu havia me preparado para parar’’.

Foto: Vuca, Noronha, Carlos Augusto (em cima), Tinho e Berg agachados.
Cobrador de ônibus a policial civil
Mas, e aí, o que o jogador Tinho foi fazer? "Quando parei mesmo. fui cobrador de ônibus. Trabalhei na Pirangy (atual Reunidas) e na Guanabara, por uns cinco anos". Nem assim se afastou da bola - "Joguei muitas vezes nos campeonatos do Rodoviáriows", comenta, lembrando que muitas vezes uma equipe não tinha o número suficiente de atletas e aí o grupo se juntava a outro.. fora a surpresa de um ou outro torcedor nas "borboletas"  dos ônibus Natal afora - "Chegavam um ou outro dizendo, "Como é que pode, você aqui? Jogava tanto e agora está como cobrador?..." e eu respondia "Se você me pagar, juro que saio daqui agora!". Em seguida, montou para si uma mercearia - "Foi na minha casa. Nesse tempo eu morava na Avenida Três (atual presidente José Bento, no Alecrim)". Um dia, surgiu-lhe uma oportunidade interessante - "Um concurso para a Polícia Civil. Fiz, passei, esperei ser chamado. Sou agente há 16 anos". E a família, como vai? "Sou casado há 24 anos", frisa. Casou-se com Antonia Deuza Alves Martins do Santos - "Ela também é policial. É delegada!". Daí vieram três filhos: Gabriel, 23 anos ("Está para concluir Fisioterapia"); Gabriela, 22 ("Ela faz Direito"); e Graciele, 19 ("Também faz Direito"). Netos? Nenhum. "É por enquanto, mas com certeza vem..."
BATE-BOLA
O POTI - De onde surgiu o apelido "tinho"?
Tinho - 
Sabe que nem eu sei? Só quem talvez pudessem explicar fosse papai e mamãe. Acredito que tenha sido assim... meu pai também se chama Maurício, e minha mãe me chamava de Mauricinho, e daí, talvez - com aquela pronúncia de criança pequena - eu só falava "tinho"... Eu acho que foi assim, não tenho certeza!!

O POTI - Consta que o técnico João Avelino era, digamos, meio esquecido das idéias....
Tinho - 
O homem era tão "louco" que me selecionou num dia e, no dia seguinte ele me perguntou "Ué, e eu te selecionei?... Se fosse outro jogador, da entrada do clube teria voltado na hora... E tem mais: no meu teste eu atuei como ponta direita, só que Avelino me achou "muito alto" para a posição e me colocou como centroavante! Porém eu me destaquei mesmo nas pontas..

O POTI - E o América?
Tinho - 
Antes de eu jogar futebol no ABC, eu fazia futsal no  América, no tempo que o técnico era Olinto Galvão e o presidente do clube era Jussier Santos. Fui da equipe de juniores do América, e pouco depois fiz o peneirão do ABC. Artuzinho (Artur Ferreira, hoje técnico de futsal) ainda deu meu nome a Jussier, mas preferi ficar no futebol pelo ABC, tanto que parei de frequentar o futsal. Resultado: Artuzinho está de mal comigo até hoje.

O POTI - Parece que tem mais coisa nisso de futebol e futsal?
Tinho -
Sim, quando eu era bem menino mesmo fui goleiro de futsal! E no futebol antes do ABC, lá no meu comecinho, joguei pelo Independente, time ali do centro, de Edivaldo Burro Preto...