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Guerreiro
O
volante mineiro
radicado em
Natal fez
história no ABC,
mas também tem
"andanças" para
contar.
Gelson
falou com
saudades dos
bons tempos do
futebol, e até
de sua
inesquecível
briga com Zico,
em Mossoró.
Na posição de
volante, o
primeiro homem
do meio-campo,
aquele com o
número 5 às
costas, ajudou o
ABC a conquistar
três títulos,
entre 1977 e
1985. Seu nome?
Gelson. Na pia
batismal, Gelson
José Divino,
nascido a 29 de
outubro de 1960.
Tinha tudo para
nascer por aqui.
Mas... ‘‘Nasci
em Canápolis
(MG)’’ Onde? É
longe: a 3.069
km de Natal, bem
perto da
fronteira com
Goiás e a cidade
‘‘grande’’ mais
próxima é
Uberlândia (a
2.950 km de
Natal). E é
pequena: tem
pouco mais de 7
mil habitantes
(pela estimativa
do IBGE), cabe
todo mundo no
Ginásio
Machadinho!
‘‘Minha mãe é
daqui, mas muito
nova foi para
lá, morar numa
fazenda. E meu
pai morava de
frente à fazenda
onde ela
morava!’’
Veio a Natal com
10 anos de
idade. ‘‘Era e
ainda é uma
cidade
maravilhosa.
Mas, naquele
tempo, ainda
dava para andar
pela cidade
tarde da noite
sem se preocupar
com nada...’’,
lembra. ‘‘Meu
início no
futebol foi
aqui, jogando
ali no Sagrada e
no Padre
Miguelinho.
Também joguei no
Sítio do Doutor
Shock (na Olinto
Meira; no local,
hoje, há um
conjunto
habitacional da
Marinha). Eu
também jogava às
vezes na Praia
do Meio, de
madrugada...’’
E como foi parar
no ABC? O homem
jura que foi
através do
namorado de uma
amiga. Era o ano
de 1977 -
‘‘Naquele tempo,
ali na Avenida 9
(atual Rua
Coronel Estevam),
só tinha
ABCdista doente!
Eu conhecia uma
menina, mais
conhecida por
Preta, que
namorava um
rapaz meio
branquelo... não
consigo lembrar
do nome dele!
Mas foi ele
quem, um dia, me
levou para
participar de um
‘peneirão’ no
ABC, no tempo da
sede de Morro
Branco. Com 20
minutos de
testes fui
aprovado!! O
técnico era
Maranhão;
Esmerino, Beto
Galo e Madson
davam força ao
pessoal’’.
Gelson
participou de
uma temporada
entre os
juniores. Pouco
depois ascendeu
à categoria
profissional.
Aliás, não
apenas ele. Em
1978, com uma
equipe
praticamente
renovada -
muitos vindos
das bases da
equipe, depois
do fiasco do ano
anterior - o
alvinegro foi
campeão. ‘‘Nosso
técnico era
Valdemar
Carabina,
auxiliado por
Galvão e
Ferdinando
(Teixeira).
Vindos dos
juniores estavam
eu, Berg,
William, Tinho,
Joel Celestino,
Beto, Toinho,
Noronha... foi
muita coragem de
Carabina colocar
todos estes
jovens para
jogar. Foi uma
das melhores
safras de
atletas que o
ABC já teve’’.
Defendeu o
‘‘Mais Querido’’
até 1985 - e
nesse meio tempo
conquistou mais
dois títulos -
precisamente, o
bicampeonato
1983-1984,
último ano
invicto.
Outros clubes
Do ABC, foi
parar no Vila
Nova-GO. Mais
uma história
curiosa. ‘‘Eu
namorava uma
menina, e um
conhecido dela
trabalhava
negociando
mercadorias nas
cidades. Ele
ficava
‘ameaçando’ de
me levar a
Goiás. Um dia
ele fez o
convite mesmo. O
presidente do
ABC (na época,
Rui Barbosa) me
liberou de
imediato! Sofri
um bocadinho
para chegar em
Goiânia, via
sertão baiano,
afinal levava na
bagagem um carro
e uma lancha...
é, uma lancha! E
fui assaltado em
Barreiras
(BA)!’’
Ao chegar em
Goiânia se viu
‘‘entregue’’ a
João Carneiro,
presidente de
honra do Vila
Nova. ‘‘Ele era,
assim, o Jussier
Santos de lá.
Mal havia sido
apresentado, e
já estava
alojado num
hotel no centro
da cidade com o
aviso de que
teria que me
apresentar na
segunda-feira...’’.
Ficou apenas
seis meses,
depois a equipe
foi desmontada.
‘‘Lá só tinha
fera, como
Reinaldo, que
passou pelo ABC
e pelo América;
Wendell,
ex-goleiro do
Botafogo; e Luís
Dário, que hoje
é técnico. Nosso
técnico era
Natanael
Ferreira’’.
Na seqüência,
veio o
Anapolina-GO.
‘‘O técnico era
Aderbal Lana.
Fiquei quase 5
meses, o tempo
que restava para
encerrar o
Campeonato
(Goiano)’’. Aí
recebeu convite
para o Operário
de Várzea
Grande-MT -
‘‘Fui muito bem
recebido. O time
estava sendo
montado, traziam
uma leva de
jogadores
cariocas, como
Dreyfus e
Campos... mas
minha maior
surpresa foi
encontrar
Ivanildo, o
Ivanildo Arara
contra quem
havia jogado
várias vezes, eu
pelo ABC e ele
pelo América!
Ele era de
Pernambuco mas
era louco por
Natal, só falava
em Natal, queria
saber como
estavam as
coisas...’’
Isso tudo em
1985. No ano
seguinte jogou
um tempo pelo
CRB - ‘‘Fui
indicado por um
centroavante,
Joãozinho
Paulista,
ex-Goiás. O
homem me indicou
direto ao
presidente do
clube!’’.
Na foto ao
lado de Zico, o
mesmo que
lembrou dele
como sendo o "brabão
lá de Mossoró",
bons tempos.
Trocando
tapa
Depois do CRB,
foi parar no
Baraúnas.
‘‘Estreei contra
o ABC, fui o
melhor em campo.
O jogo foi no
Machadão. Pelo
Baraúnas joguei
uma temporada
inteira, ao lado
de Berg, Rômulo,
Cláudio
Oliveira...’’
Além disso, o
Baru fez três
amistosos:
contra o CSA,
contra o
Botafogo e
finalmente
contra o
Flamengo, todos
no Nogueirão -
‘‘O Flamengo?
Zico, Adílio,
Mozer, Tita,
Figueiredo,
Cantarelli...
nos 90 minutos
de jogo, se eu
toquei duas
vezes na bola
foi muito’’. É
deste último
jogo que tem uma
lembrança forte
- a de ter
trocado tapa com
Zico. É o quê?
‘‘Foi num lance
com Tita na
área. Vim na
cobertura, aí
ele entrou
sozinho. Senti
que ele ia
entrar por trás
de um lateral
enquanto todos
esperavam que
outro viesse
pela frente.
Dei-lhe um
carrinho! Aí
veio Zico,
gritando ‘Vá
jogar direito,
seu *&$%#!’
Respondi no
mesmo nível
e...’’ O
bate-boca
terminou em
troca-tapa.
‘‘Depois veio
Mozer me
levantando pelos
cabelos... só
não apanhei
porque essa
confusão foi do
lado do banco do
Baraúnas...’’ E
ainda se dá ao
requinte de
apontar uma
testemunha
ocular -
‘‘Nonato, hoje
no Cruzeiro, era
nosso lateral
esquerdo, viu
tudo!’’
Antes que
esqueçamos: o
placar terminou
3 a 2 para o
Flamengo - mas
ficaram na
memória os gols
do Baraúnas
(marcados por
Carlinhos
Bacurau) e os
tapas entre
Gelson e Zico...
E assim chegou o
ano de 1987.
Gelson voltou ao
ABC. ‘‘Fiquei
sem clube depois
da temporada no
Baraúnas. Galvão
e Ferdinando
Teixeira me
deram uma nova
oportunidade.
Foi um contrato
curto, de apenas
3 meses.
Desilusão com
diretores
Abandonou o
futebol em 1987
mesmo. "Eu
parei, chateado
com o futebol,
desiludido com
os dirigentes,
amadores, sem
compromisso...
jogar sem
receber não
dava! Falta de
respeito...".
Foi trabalhar
numa empresa que
fazia serviço
terceirizado à
Petrobrás; algum
tempo depois,
estava no Banco
Mercantil; em
seguida,
trabalhou pela
Urbana.
Atualmente está
na Natal
Indústria, de
propriedade de
um cunhado -
"João Veríssimo.
Ele me ajudou
muitas vezes.
Ajuda até hoje,
inclusive na
doença..."
Doença? Há quase
três anos Gelson
luta contra a
insuficiência
renal crônica.
"Foi assim, de
repente. Não era
hepatite C.
Ninguém
entendeu! Perdi
os rins, que
pararam de
funcionar, e
hoje estou na
hemodiálise. Os
especialistas
não souberam me
dizer a
causa..." - foi
tal a dúvida que
o primeiro
diagnóstico era
de anemia, mas
apesar do
tratamento os
rins funcionavam
cada vez pior.
Por sorte,
encontrou alguém
na família que é
compatível com
ele para um
transplante -
Fábio Guilherme,
um dos irmãos.
"Estamos nos
últimos detalhes
para fazer o
transplante".
Quanto a
família, é seco
- "Casado, com
Regina Passos.
Se eu contar
desde o namoro,
são 24 anos".
Mais nada. O
resto é
silêncio.
Gelson hoje
luta bravamente
contra a
insuficiência
renal
BATE-BOLA
O POTI -
Consta que você
antes de atuar
como volante
tinha outra
função...
Gelson -
Comecei mesmo
como goleiro nas
peladas! Ficava
no gol por
contra dos mais
velhos.. depois
é que fui para o
meio-campo. No
ABC eu já estava
no meio-campo,
longe do gol.
O POTI -
Explique direito
essa história de
jogar de
madrugada...
Gelson - A
gente acordava
muito cedo para
bater bola na
Praia do
Meio.Ainda era
escuro,
madrugada.Era eu
e meu irmão mais
velho Gilson,
que hoje é
advogado. Como é
que a gente
acordava tão
cedo,
honestamente,
não sei....
O POTI - O
que danado você
foi fazer com
uma lancha em
Goiás?
Gelson - É
que por ali tem
o Rio
Araguaia... e
ali, quem tem
lancha é rei!
Tem um período
que a margem do
rio fica
parecendo uma
beira de praia,
com uma areia
branca... e vai
todo mundo para
lá, era a praia
da gente em
Goiás....
O POTI - E
que história é
essa de você ser
o "Brabão de
Mossoró"?
Gelson -
Isso foi anos
depois da briga
com Zico no
Nogueirão. Ele
veio aqui a
Natal para
lançar um livro.
Fui para lá,
comecei a
desfiar a
memória, e aí
ele lembro e se
levantou dizendo
"Peraí...então
você é que é o
brabão lá de
Mossoró?..."
O POTI - Qual
o jogador que
lhe deu mais
trabalho?
Gelson -
Severinho. Ele
"apanhava" mas
vinha para
encarar em
seguida! |