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Diário de Natal 02/04/2006
Rogério Torquato da equipe de O POTI

 

Gelson saiu de ‘safra’ de ouro

Guerreiro O volante mineiro radicado em Natal fez história no ABC, mas também tem "andanças" para contar.  
Gelson falou com saudades dos bons tempos do futebol, e até de sua inesquecível briga com Zico, em Mossoró.

Na posição de volante, o primeiro homem do meio-campo, aquele com o número 5 às costas, ajudou o ABC a conquistar três títulos, entre 1977 e 1985. Seu nome? Gelson. Na pia batismal, Gelson José Divino, nascido a 29 de outubro de 1960.

Tinha tudo para nascer por aqui. Mas... ‘‘Nasci em Canápolis (MG)’’ Onde? É longe: a 3.069 km de Natal, bem perto da fronteira com Goiás e a cidade ‘‘grande’’ mais próxima é Uberlândia (a 2.950 km de Natal). E é pequena: tem pouco mais de 7 mil habitantes (pela estimativa do IBGE), cabe todo mundo no Ginásio Machadinho! ‘‘Minha mãe é daqui, mas muito nova foi para lá, morar numa fazenda. E meu pai morava de frente à fazenda onde ela morava!’’

Veio a Natal com 10 anos de idade. ‘‘Era e ainda é uma cidade maravilhosa. Mas, naquele tempo, ainda dava para andar pela cidade tarde da noite sem se preocupar com nada...’’, lembra. ‘‘Meu início no futebol foi aqui, jogando ali no Sagrada e no Padre Miguelinho. Também joguei no Sítio do Doutor Shock (na Olinto Meira; no local, hoje, há um conjunto habitacional da Marinha). Eu também jogava às vezes na Praia do Meio, de madrugada...’’

E como foi parar no ABC? O homem jura que foi através do namorado de uma amiga. Era o ano de 1977 - ‘‘Naquele tempo, ali na Avenida 9 (atual Rua Coronel Estevam), só tinha ABCdista doente! Eu conhecia uma menina, mais conhecida por Preta, que namorava um rapaz meio branquelo... não consigo lembrar do nome dele! Mas foi ele quem, um dia, me levou para participar de um ‘peneirão’ no ABC, no tempo da sede de Morro Branco. Com 20 minutos de testes fui aprovado!! O técnico era Maranhão; Esmerino, Beto Galo e Madson davam força ao pessoal’’.

Gelson participou de uma temporada entre os juniores. Pouco depois ascendeu à categoria profissional. Aliás, não apenas ele. Em 1978, com uma equipe praticamente renovada - muitos vindos das bases da equipe, depois do fiasco do ano anterior - o alvinegro foi campeão. ‘‘Nosso técnico era Valdemar Carabina, auxiliado por Galvão e Ferdinando (Teixeira). Vindos dos juniores estavam eu, Berg, William, Tinho, Joel Celestino, Beto, Toinho, Noronha... foi muita coragem de Carabina colocar todos estes jovens para jogar. Foi uma das melhores safras de atletas que o ABC já teve’’.

Defendeu o ‘‘Mais Querido’’ até 1985 - e nesse meio tempo conquistou mais dois títulos - precisamente, o bicampeonato 1983-1984, último ano invicto.

Outros clubes
Do ABC, foi parar no Vila Nova-GO. Mais uma história curiosa. ‘‘Eu namorava uma menina, e um conhecido dela trabalhava negociando mercadorias nas cidades. Ele ficava ‘ameaçando’ de me levar a Goiás. Um dia ele fez o convite mesmo. O presidente do ABC (na época, Rui Barbosa) me liberou de imediato! Sofri um bocadinho para chegar em Goiânia, via sertão baiano, afinal levava na bagagem um carro e uma lancha... é, uma lancha! E fui assaltado em Barreiras (BA)!’’

Ao chegar em Goiânia se viu ‘‘entregue’’ a João Carneiro, presidente de honra do Vila Nova. ‘‘Ele era, assim, o Jussier Santos de lá. Mal havia sido apresentado, e já estava alojado num hotel no centro da cidade com o aviso de que teria que me apresentar na segunda-feira...’’. Ficou apenas seis meses, depois a equipe foi desmontada. ‘‘Lá só tinha fera, como Reinaldo, que passou pelo ABC e pelo América; Wendell, ex-goleiro do Botafogo; e Luís Dário, que hoje é técnico. Nosso técnico era Natanael Ferreira’’.

Na seqüência, veio o Anapolina-GO. ‘‘O técnico era Aderbal Lana. Fiquei quase 5 meses, o tempo que restava para encerrar o Campeonato (Goiano)’’. Aí recebeu convite para o Operário de Várzea Grande-MT - ‘‘Fui muito bem recebido. O time estava sendo montado, traziam uma leva de jogadores cariocas, como Dreyfus e Campos... mas minha maior surpresa foi encontrar Ivanildo, o Ivanildo Arara contra quem havia jogado várias vezes, eu pelo ABC e ele pelo América! Ele era de Pernambuco mas era louco por Natal, só falava em Natal, queria saber como estavam as coisas...’’

Isso tudo em 1985. No ano seguinte jogou um tempo pelo CRB - ‘‘Fui indicado por um centroavante, Joãozinho Paulista, ex-Goiás. O homem me indicou direto ao presidente do clube!’’.

Na foto ao lado de Zico, o mesmo que lembrou dele como sendo o "brabão lá de Mossoró", bons tempos.
Trocando tapa
Depois do CRB, foi parar no Baraúnas. ‘‘Estreei contra o ABC, fui o melhor em campo. O jogo foi no Machadão. Pelo Baraúnas joguei uma temporada inteira, ao lado de Berg, Rômulo, Cláudio Oliveira...’’ Além disso, o Baru fez três amistosos: contra o CSA, contra o Botafogo e finalmente contra o Flamengo, todos no Nogueirão - ‘‘O Flamengo? Zico, Adílio, Mozer, Tita, Figueiredo, Cantarelli... nos 90 minutos de jogo, se eu toquei duas vezes na bola foi muito’’. É deste último jogo que tem uma lembrança forte - a de ter trocado tapa com Zico. É o quê?

‘‘Foi num lance com Tita na área. Vim na cobertura, aí ele entrou sozinho. Senti que ele ia entrar por trás de um lateral enquanto todos esperavam que outro viesse pela frente. Dei-lhe um carrinho! Aí veio Zico, gritando ‘Vá jogar direito, seu *&$%#!’ Respondi no mesmo nível e...’’ O bate-boca terminou em troca-tapa. ‘‘Depois veio Mozer me levantando pelos cabelos... só não apanhei porque essa confusão foi do lado do banco do Baraúnas...’’ E ainda se dá ao requinte de apontar uma testemunha ocular - ‘‘Nonato, hoje no Cruzeiro, era nosso lateral esquerdo, viu tudo!’’
Antes que esqueçamos: o placar terminou 3 a 2 para o Flamengo - mas ficaram na memória os gols do Baraúnas (marcados por Carlinhos Bacurau) e os tapas entre Gelson e Zico... E assim chegou o ano de 1987. Gelson voltou ao ABC. ‘‘Fiquei sem clube depois da temporada no Baraúnas. Galvão e Ferdinando Teixeira me deram uma nova oportunidade. Foi um contrato curto, de apenas 3 meses.

Desilusão com diretores
Abandonou o futebol em 1987 mesmo. "Eu parei, chateado com o futebol, desiludido com os dirigentes, amadores, sem compromisso... jogar sem receber não dava! Falta de respeito...". Foi trabalhar numa empresa que fazia serviço terceirizado à Petrobrás; algum tempo depois, estava no Banco Mercantil; em seguida, trabalhou pela Urbana. Atualmente está na Natal Indústria, de propriedade de um cunhado - "João Veríssimo. Ele me ajudou muitas vezes. Ajuda até hoje, inclusive na doença..."
Doença? Há quase três anos Gelson luta contra a insuficiência renal crônica. "Foi assim, de repente. Não era hepatite C. Ninguém entendeu! Perdi os rins, que pararam de funcionar, e hoje estou na hemodiálise. Os especialistas não souberam me dizer a causa..." - foi tal a dúvida que o primeiro diagnóstico era de anemia, mas apesar do tratamento os rins funcionavam cada vez pior. Por sorte, encontrou alguém na família que é compatível com ele para um transplante - Fábio Guilherme, um dos irmãos. "Estamos nos últimos detalhes para fazer o transplante".
Quanto a família, é seco - "Casado, com Regina Passos. Se eu contar desde o namoro, são 24 anos". Mais nada. O resto é silêncio.

Gelson hoje luta bravamente contra a insuficiência renal

BATE-BOLA
 

O POTI - Consta que você antes de atuar como volante tinha outra função...
Gelson
- Comecei mesmo como goleiro nas peladas! Ficava no gol por contra dos mais velhos.. depois é que fui para o meio-campo. No ABC eu já estava no meio-campo, longe do gol.

O POTI - Explique direito essa história de jogar de madrugada...
Gelson
- A gente acordava muito cedo para bater bola na Praia do Meio.Ainda era escuro, madrugada.Era eu e meu irmão mais velho Gilson, que hoje é advogado. Como é que a gente acordava tão cedo, honestamente, não sei....

O POTI - O que danado você foi fazer com uma lancha em Goiás?
Gelson
- É que por ali tem o  Rio Araguaia... e ali, quem tem lancha é rei! Tem um período que a margem do rio fica parecendo uma beira de praia, com uma areia branca... e vai todo mundo para lá, era a praia da gente em Goiás....

O POTI - E que história é essa de você ser o "Brabão de Mossoró"?
Gelson
- Isso foi anos depois da briga com Zico no Nogueirão. Ele veio aqui a Natal para lançar um livro. Fui para lá, comecei a desfiar a memória, e aí ele lembro e se levantou dizendo "Peraí...então você é que é o brabão lá de Mossoró?..."

O POTI - Qual o jogador que lhe deu mais trabalho?
Gelson
- Severinho. Ele "apanhava" mas vinha para encarar em seguida!