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Considerado um dos maiores craques da história do futebol norte-rio-grandense, o pernambucano Alberi José Ferreira de Matos nasceu em 1945 e aportou em terras potiguares no final dos anos 60. A partir de então, e até 1983, foram títulos, conquistas, prêmios e o reconhecimento das maiores torcidas do Estado.
Alberi jogou pela Santa Cruz (PE), Baraúnas de Mossoró, Sergipe (SE), Rio Negro (AM), Campinense (PB), Icasa (CE), mas foi na capital potiguar, atuando pelos três grandes, que trilhou a melhor fase de sua trajetória vitoriosa.
Em entrevista exclusiva à revista "DEZ", o craque fala de seu início no esporte, a conquista da "Bola de Prata" em 1972, mas também da falta de reconhecimento e do baixo nível do futebol atual:
Quem primeiro reconheceu o seu potencial para ser um jogador de futebol?
É difícil dizer. Primeiro eu não queria ser jogador de futebol. Para você ver, quando a gente não que as coisas, aí é um dom que Deus dá. Naquela época que comecei, o jogador não era uma pessoa bem vista na sociedade, era discriminado. Hoje, o jogador de futebol está acima da sociedade. Por isso, queria mais trabalhar que ser jogador, que era uma profissão, mas não era muito bem divulgada. Hoje tem jogador que é "perna de pau" e a mídia é quem faz ele.
E apesar desse receio, como iniciou a carreira?
Na época, tinha o Central de Caruaru, o Santa Cruz, o Náutico, o Sport, iam atrás de mim. Eu jogava pelada amadora. Quatro, cinco caras me pegavam na segunda-feira, para eu jogar no domingo. Isso com 17 anos.
O primeiro contrato foi no Santa Cruz, com 18 para 19 anos. Foram precisos só dois coletivos, aí assinaram logo o contrato profissional. Tinha muito jogador bom no time. O Gradim, um grande treinador, foi lá em casa perguntar se minha senhora queria que eu viesse embora para Natal, ou queria que ficasse no Santa Cruz. Eu queria vir para Natal, ganhar meu dinheiro.
E quando veio, sabia algo sobre Natal, sobre o ABC?
A gente, naquela época, vinha com referências. Hoje não, o jogador chega sem saber de nada. Não conhecia Natal, mas tinha referências. O bairro de Natal que gente podia visitar e morar era o Alecrim, mas só que fui direto para as Rocas e gostei. Isso de 1968 para 1969.
Um dos responsáveis por sua vinda foi o então dirigente do ABC, José Prudência Sobrinho. O que esse nome significa?
José Prudêncio é uma lenda da história do futebol. Deixou muitas saudades. Quando a pessoa é boa, deixa muitas saudades. Ele deixou saudade tanto para mim, quanto para a torcida do ABC. No dia que eu morrer, também vou deixar saudades. Ou de ruim, ou de bom.
Só que logo depois o senhor voltou para Recife?
Voltei, porque Natal ainda era um bairro, não era uma cidade. Aqui realmente não tinha nada. Depois, em 1970, o ABC foi lá me buscar. Gostei de Natal, porque naquela época tinha uns presidentes de muito respeito, que tinham consideração com o jogador. Hoje não, os presidentes trabalham muito devagar, não tem aquele que seja querido pelo povo, pelo torcedor. Tem muito jogador bom, mas por que não sai tanto jogador daqui? Será que o treinador é bom e o jogador é ruim? Os caras não conhecem. Hoje o futebol está "malocado" por treinador que faz curso não sei aonde e nunca chutou uma bola. O futebol está atrasado por causa disso. Quem deve ensinar futebol é quem é do ramo, quem não é, não pode.
É verdade que chegou a receber salários em eletrodomésticos?
Essa história dos eletrodomésticos não era só eu não, era com um bocado. Me deram um carro e ninguém fala disso, só da radiola e da geladeira e que nunca me deram a coleção dos discos do Waldick Soriano que eu gosto, mas não falam do carro, que era um Fuscão do ano.
Apesar de se declarar um abecedista, seu nome é muito respeitado pela torcida do América, onde também atuou?
Fui para o América e naquela época era difícil um jogador ir para outro clube. Quando a gente é querido pelas torcidas, é porque a gente faz um bom trabalho. Graças a Deus fui querido e até hoje sou querido. Gosto muito das torcidas do Rio Grande do Norte,do ABC, América, Alecrim, Baraúnas, qualquer outra. Agora, essas mais novas é que eu não acompanhei, mas tem muitos amigos meus.
"ADORAVA QUANDO OS CARAS ME XINGAVAM. JOGAVA MUITO MAIS"
Precisava valorizar mais o pessoal do Estado?
Os clubes não dão oportunidade. O América dá oportunidade, o ABC não dá. Faz 23 anos que estou aqui fora (das quatro linhas) e o ABC nunca me chamou para fazer um bom trabalho.
Isso é uma frustação?
Frustação não. Isso era uma obrigação deles. Acho que eles deviam ter mais respeito pelos seus ídolos. O único time do Brasil que não tem respeito pelos seus ídolos é o ABC.
E a homenagem que lhe deram colocando seu nome em um campo de treinamento?
Tudo bem, mas o que eu quero é um emprego.Colocaram meu nome, mas talvez tirem, porque eu não estou no meio deles.
Mas acha que valeu a pena o investimento no Frasqueirão?
É claro, o ABC vai ter outra dimensão, está tomando o rumo de um time para frente. Para o ABC ainda está faltando muita coisa, porque só o presidente não dá para fazer o que precisa para deixar o clube mais organizado. Só o presidente não resolve o trabalho que falta para o ABC.
Como foi conquistar o prêmio da Bola de Prata em 1972?
Hoje, as pessoas não sabem quem é o Bola de Prata. Na época, saía a foto dos jogadores na loteria esportiva. Você chegando em qualquer canto, as pessoas conheciam. Como é que pode um argentino, o Tevez, ganhar Bola de Ouro e Prata, só faltou sair artilheiro. É um cara muito esforçado, mas ele não é essas bolas todas, não. Tem jogador no Brasil? Não tem. Antigamente era muito difícil ganhar, disputava com Rivelino, Gerson, Jairzinho, Tostão, Leivinha, essas feras todas. A gente acompanhava a nota a cada rodada e o presidente do clube pedia para eu não me meter em confusão para não ser expulso. Eeu ganhei a Bola de Prata ainda passando cinco jogos do campeonato fora, porque o ABC foi eliminado.
Hoje se fala em Romário chegar aos mil gols, no futebol atual Alberi atingiria uma marca dessas?
É muito difícil. Se tivesse o dinheiro que ele tem, eu comprava goleiro, comprava otime e fazia mil gols. Mas se forem computar todos meus gols, tenho muito mais de 500. Porque computaram só os gols pelo ABC e América. Não computaram do Baraúnas, Alecrim, dos jogos amistosos. E só em campeonatos em fiz 79 pelo ABC.
Acredita na conquista da taça do hexacampeonato este ano?
A taça é o prazer de todo brasileiro. Para mim, se trouxer está bem, se não trouxer também. A seleção é igual a artista de filme em que o mocinho leva porrada pra caramba do bandido, mas quando está morrendo dá um murro e mata o bandido.
E no futebol potiguar, alguma revelação?
Não conheço os jogadores pelo nome. Vi uns meninos bons no Alecrim. Espero que consigam bons empresários para ganhar um bom dinheiro. Agora, hoje é tudo caminhão de japonês.
O futebol evoluiu?
Os caras falam que a preparação física mudou. O que mudou foi mais correria e menos técnica, menos futebol. E tem muita gente morrendo, não sei se por esforço, mas tem.
"O IMPORTANTE NÃO É VOCÊ SER MUITO VELOZ, É BOTAR SUA CABEÇA PARA TRABALHAR"
Mas tem algum sonho de abrir, por exemplo, uma escolhinha?
Só se tivesse alguma empresa apoiando. Aí, você ia ver como ia sair muito jogador daqui, ponta de lança, centro-avante, lateral esquerdo.
E o senhor era muito ligado em treinar?
Treinava, mas diziam que eu não treinava, fazer o que? O importante não é você ser muito veloz, é botar sua cabeça para trabalhar. O cavalo...o cavalo corre pra caramba, mas não chuta uma bola.
Há ainda alguma expectativa de voltar a trabalhar com futebol?
Já joguei meu chapéu há muito tempo. O que deveria fazer, já deveria ter feito há muito tempo. Nãome deram a oportunidade devida pelo que fiz pelo clube. Não estou reclamando, estou dizendo a realidade, não me deram essa oportunidade. Quando o presidente era Paiva Torres, eu treinava os goleiros, que eram bem treinados,e eu esperava ter a oportunidade, mas não me deram a oportunidade. Aí pedi para sair e fui embora para casa. Eu tinha 38 anos, ele chegou e disse que eu era muito novo para ser o treinador. Poxa, vou ser treinador do ABC com 200 anos?
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