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Tribuna do Norte 03/04/2005
George Fernandes
Repórter

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Futebol de Fraldas

O lateral direito Nego (em primeiro plano) comanda a “legião” de novos valores.
A faixa etária do futebol brasileiro é cada vez menor. Com a abertura do mercado externo, craques e até mesmo alguns “pernas de pau” ganharam o mundo, sonhando com dólares e euros, além de garantir uma vida melhor para a família, sem violência urbana (a moda, agora, é o seqüestro de mães de atletas) e desorganização fora de campo.

A nova ordem no futebol canarinho desencadeou uma situação desconfortável para o torcedor que, com o rodízio constante de jogadores, sente cada vez mais dificuldades em escalar seu próprio time. Os jogadores que estão fora do eixo Rio-São Paulo sentem um pouco mais de dificuldade, mas também entram na rota.

Os craques formados no Rio Grande do Norte, por exemplo, quando não têm a interferência de empresários ou procuradores, vislumbram, antes de carimbar o passaporte, a transferência para um grande clube do futebol brasileiro. “Se surgir uma oportunidade quero ir para o São Paulo, meu clube de coração”, sonha o atacante Tiago, 20 anos, uma das revelações do ABC nesta temporada. “Temos que pensar alto. Não dá para ficar querendo apenas jogar pela região”, concluiu.

Por outro lado, com a sazonalidade do futebol local é comum à formação de “times de aluguel” – equipes formadas com jogadores experientes, contratados em outras praças para um período nunca superior a seis meses.

Sem dinheiro, os clubes apostam na “prata-da-casa”

Dar moral aos atletas em formação há muito deixou de ser apenas uma opção para tornar-se a única saída dos clubes que, sem dinheiro para concorrer com o mercado estrangeiro, são obrigados a tapar os “buracos” de qualquer forma. A profissionalização precoce, que queima etapas na vida e na carreira de jovens valores, tem sido a única solução.

Há quem amadureça na marra, mas tem também quem não suporte a pressão natural. “Obina (atacante do Vitória) subiu para o profissional porque era um bom finalizador, mas tinha uma série de aspectos técnicos para corrigir, como o uso da perna esquerda. No time de cima, ele não trabalhar nada disso, porque a cobrança é por resultado. É ruim para o próprio clube, que vai acabar tendo um jogador menos completo do que poderia”, afirmou Chiquinho de Assis, técnico das categorias de base do Vitória/BA, em entrevista à Revista Placar.

“A cobrança é muito grande em cima de um garoto desses. O garoto precisa adquirir confiança para poder mostrar seu valor e dar resultados. Muitas vezes, a torcida pega no pé só porque o menino deu um passe errado ou perdeu um gol em apenas um jogo. Isso acaba queimando o cara”, destacou Marciano, 25 anos, ala esquerdo revelado pelo ABC, com passagem pelo Grêmio/RS e América/MG.

Precipitar o lançamento de adolescentes no time principal acaba sendo uma política de alto risco. “É como colocar um menino inteligente que acabou de sair da oitava série direto na Faculdade”, disse Marco Aurélio Cunha, superintendente de futebol do São Paulo à Revista PHT. “Mesmo que seja um garoto superdotado, o garoto não vai ter a vivência necessária pra aproveitar o ensino superior. Pulam-se etapas necessárias”, concluiu Marco.

“É certo que os técnicos devem observar e acompanhar com carinho o trabalho que está sendo realizado na base. No entanto, a precipitação em colocar um garoto no time de cima é um risco muito grande. O jogador precisa ser preparado em todos os aspectos antes de encarar a pressão natural do futebol profissional”, completou o ex-jogador Severo Dias, técnico das divisões de base do América há 12 anos.

Nego é o mais novo “xodó” da Frasqueira

Destaque na Copa São Paulo de Juniores – principal vitrine para os jogadores da categoria – o lateral direito Nego deixou de ser uma promessa para se transformar numa realidade no ABC. Morador da Vila de Ponta Negra, Lindemberg Francisco da Silva, 19 anos, driblou as dificuldades de uma vida humilde para seguir firme na carreira de jogador de futebol. O novo “xodó” da Frasqueira também já sentiu o gosto amargo de uma dispensa e a consagração em outro esporte.

“Comecei muito cedo, aos nove anos de idade na escolinha do Hélio Show (ex-goleiro e ex-preparador de goleiros do ABC). Depois passei pelas escolinhas do professor Cacau (AABB) e do próprio ABC. No juvenil, fui dispensado pelo América, depois de fazer alguns testes. Ainda fui atleta-ouro dos Jern’s (Jogos Escolares do RN), jogando futebol de areia pelo Machadão (Escola Estadual João Machado, de Ponta Negra), em 2001 e 2002. E campeão pela seleção Norte-rio-grandense de Beach Soccer, com o professor Andrey Valério”, contou Nego, mais conhecido por Berg no futebol de areia.
 

Contando sempre com o apoio incondicional da “mãe coruja”, o segundo de quatro filhos de Dona Maria Lucineide agradece o apoio que tem recebido do clube e da torcida. “É bom saber que a torcida gosta do meu futebol. Isso me dar mais força para continuar trabalhando. O técnico Flávio Lopes me deu essa chance e não vou decepcionar”, afirmou o ala direito, que ganhou a confiança do ABC e do treinador.

Juntos, ABC e América, principais forças do futebol potiguar, promoveram 27 novos valores nesta temporada. No América, as duas “moedas” mais valiosas foram reveladas no ano passado. A dupla de atacantes, Diego e Rodolfo, já deixou de ser promessa e só aguarda uma oportunidade para se firmar no time.

“Espero conquistar a confiança e seguir meu sonho de jogar num grande clube. Quem sabe o Flamengo, meu clube de coração”, disse Rodolfo, 20 anos. Natural de Areia Branca, o atacante chegou no América em 2004, depois de se consagrar nos torneios de sua cidade natal.

Mas, por muito pouco, a necessidade de ajudar a família não encerrou precocemente a carreira do jogador. “Trabalhava numa empresa de serviços gerais para ajudar a minha mãe. E ela não queria que eu largasse um emprego com carteira assinada para se aventurar no futebol. Mas, agora, tudo é diferente e ela me dar o maior apoio para continuar no futebol”, revelou Rodolfo.

Atlético Paranaense é exemplo a ser seguido

As categorias de base do Atlético/PR oferecem atividades extra-futebol aos atletas, que incluem recreação, ação social, orientação educacional, tratamento médico e palestras sobre os mais diversos temas. A recreação é realizada através de um convênio com uma Universidade.

Alunos da instituição são responsáveis por elaborar programas de diversão aos garotos das categorias Infantil, Juvenil e Juniores. Gincanas, jogos, passeios a pontos turísticos de Curitiba e aulas de outras modalidades esportivas, são algumas atividades realizadas. A cada dois meses, os jogadores participam de ações sociais promovidas pelo clube.

Todos os jogadores das Categorias de Base do Atlético estudam e recebem do clube orientação educacional visando a um melhor aproveitamento na escola. No Centro de Treinamento do Caju é ministrado um curso supletivo e existe apoio para os que estudam fora. Além disso, há uma biblioteca e uma sala de estudos na sede principal do CT. Os jogadores recebem também tratamento médico especializado.

Graças a um convênio com uma Universidade, os atletas recebem tratamento fisioterápico semanal e têm consultas com os médicos do clube. Por fim, a coordenação das categorias de base procura marcar palestras a todo mês sobre diversos temas de interesse dos jogadores. Um dos temas mais freqüentes é o da arbitragem. Essas palestras giram em torno das regras básicas do futebol e ainda servem para tirar as dúvidas sobre a atuação dos árbitros durante os jogos.

“Casa, comida e roupa lavada”

Apesar do elevado número de jovens valores revelados este ano, os clubes do Estado que trabalham com divisões de base ainda engatinham no processo de formação de atletas para a prática de um esporte de alto rendimento. A máxima “casa, comida e roupa lavada” é condição básica.

“A estrutura ainda está longe de ser a ideal”, resmungou o meia Hendrich, 19 anos, que antes de vestir a camisa do ABC fez testes em grandes clubes, como Cruzeiro/MG e Inter/RS. A ausência de uma estrutura moderna e de uma equipe de profissionais qualificados para assumir o leme do barco atrasa o desenvolvimento.

O ABC aposta todas as suas fichas na construção do seu estádio e na estrutura que será montada na Vila Olímpica a partir do segundo semestre deste ano. “A gente sabe que as categorias de base garantem o futuro de qualquer clube. Mas, como o ABC é um time de massa sentimos mais dificuldades em desenvolver um trabalho em médio e longo prazo. Clubes de massa como o ABC vive de resultados e a cobrança é muito grande. A torcida não tem paciência. Mas, mesmo longe do ideal já conseguimos revelar bons valores este ano”, comentou Judas Tadeu, presidente do ABC.

Ainda segundo o dirigente, o Alvinegro tem um custo mensal entre R$ 6 mil e R$ 8 mil para manter o futebol de base. “Para desenvolver um trabalho mais ou menos é necessário um investimento da ordem de vinte mil reais. O problema é que as receitas de clubes como ABC são investidas no futebol profissional. Só a partir da inauguração do estádio conseguiremos levantar novas receitas e aí sim poder investir melhor na base”, disse.

A Amepar (empresa que administra o futebol do clube) aumentou a expectativa de investimento nas categorias de base do América. “Com a chegada da Amepar acredito muito que possamos dar início ao trabalho que sempre desejamos fazer no América, dando todas as condições às categorias de base. Alguns dirigentes estão se mobilizando e espero que em breve o negócio ande”, revelou Severo Dias, técnico dos juniores.

O treinador criticou a Lei Pelé. Segundo ele, a partir da nova legislação os clubes acumularam déficit. “A Lei Pelé tem que ser revista. Do jeito que está fica difícil para o clube, que investe na formação do atleta e acaba não tendo o retorno no futuro porque vem um empresário e leva o jogador. O clube tem que obter lucros com o atleta. Isso é lógico”, alertou.

Planejamento e ciência a serviço do futebol

O trabalho de base consiste em um “planejamento plurianual de todas as atividades, ensinamentos sistematizados e ações possíveis inerentes ao futebol - atletas, local de treino, recursos humanos e materiais possíveis -, objetivando, em médio e longo prazo, a socialização, preparação técnico-tática e psicológica da criança e do jovem, respeitando-se sempre as diferenças individuais e as etapas de crescimento e desenvolvimento motor dos mesmos”.

A definição do professor da AABB, Francisco Carlos Costa, ou simplesmente “Cacau”, 48 anos, sintetiza a essência do trabalho que deve ser feito com crianças e adolescentes, que desejam ingressar no mundo do futebol - esporte de alto rendimento.

Segundo o professor, especializado em educação física escolar, durante o trabalho desenvolvido nas etapas básicas e específicas (quadro ao lado), é importante observar alguns aspectos, como organização, rendimento escolar, disciplina, convivência coletiva, avaliação médica, odontológica, biomédica, nutricional e psicológica. “Todos estes aspectos devem constar nas ‘fichas-registros’ de cada atleta”, completou Cacau.

Um dos pioneiros na formação de atletas, através de escolinhas (inaugurou a escolinha da AABB em 1988), Cacau costuma formar boas equipes. Apesar de treinar num campo de dimensões reduzidas (futebol society), a AABB acumula títulos regionais, nacionais e até internacionais.

Entre as revelações da escolinha da AABB, desde sua fundação, estão o atacante Neto Potiguar, sensação no Bahia, e Renatinho, ex-meia do América. Janiel, Tiaguinho, João Luís e Nêgo, novas promessas do ABC, são “discípulos” do professor Cacau, que tem parceria com o clube. Cacau já trabalhou como preparador físico do ABC (1980 a 1988) e jogou no profissional do Alecrim (1976 a 1978).