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Tribuna do Norte 06/03/2005
Everaldo Lopes
Repórter e Pesquisador

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Estadual: tudo começou com uma goleada em 1915

Rivalidade vem desde 1919
ABC e América foram fundados em 1915, em datas muito próximas uma da outra. O Alvinegro dia 29 de junho, os rubros 16 dias depois, ou seja 14 de julho, coincidindo com os festejos da “Queda da Bastilha” pelos franceses. Essa proximidade de fundação ajudou a acirrar a rivalidade entre os grupos de rapazes que formaram os dois clubes.

O ABC nasceu na Ribeira, precisamente na avenida Rio Branco, fundos do teatro Carlos Gomes (hoje Alberto Maranhão), enquanto o América preferiu o centro da cidade, segundo relatos da época, na residência da família Homem de Siqueira, na rua Vaz Gondim, antigo Beco da Lama. Ao contrário dos anos que se seguiram ao surgimento dos dois clubes, os fundadores eram rapazes que tinham convivência saudável, até porque, juntos, tiveram a idéia de fundar as duas associações para que pudessem disputar os primeiros jogos e criar algum tipo de lazer para uma cidade tão carente de diversões como era Natal no começo do século.

Fundados ABC e América, foram iniciadas conversações para que fosse disputado o primeiro amistoso, o que aconteceu dia 26 de setembro. Como não havia campo apropriado, improvisou-se o descampado da hoje praça Pedro Velho, na época conhecida como Vila Cincinati, residência do governador do estado, cargo ocupado pelo intelectual pernambucano, Ferreira Chaves, o primeiro governador eleito pelo voto direto no Rio Grande do Norte.

O primeiro vencedor daquele que se tornaria, anos depois um dos clássicos mais tradicionais do Nordeste, foi o ABC, aplicando um indigesto 4x0 nos rubros, gols de Mousinho (2), Mandu e Babuá, sendo estas as duas equipes: ABC com Avelino, Batalha e Cabral, Paraguai, Freire e Bigois, Moacir, Mandu, Nóbrega, Mousinho e Babuá. América - Oscar Siqueira, Lelio e Gato, Carvalho, Gallo e Antônio, Barros, Carlos Siqueira, Neco, Garcia e Pipiu. Houve várias substituições mas, infelizmente, o noticiário do jornal “A República” omite esses detalhes. Serviram de juízes Sérgio Severo e Arari de Brito, juizes de linha (os assistentes atuais) Manoel Gomes e Aguinaldo Fernandes.

Como era praxe, o jornal dava pouquíssimos detalhes dos eventos que cobria, deixando de registrar quem eram os técnicos, o desempenho dos estreantes, presença de torcedores, clima disciplinar. O leitor há de compreender que, um fato ocorrido há praticamente 90 anos não pode ter, hoje, uma testemunha ocular em condições de esclarecer algum pormenor. Afinal, quem estiver com 100 anos e tenha sido testemunha dessa partida inesquecível, revela não só uma saúde surpreendente mas sobretudo uma memória excepcional. Bom seria se pudéssemos contar com um relato de quem teve o privilégio de testemunhar evento esportivo tão singular.

Segundo ainda o jornal “A República”, uma semana após o primeiro jogo, um segundo aconteceu e no mesmo local, o chamado “ground” (campo) da Praça Pedro Velho, o América com os titulares e o ABC com seu time reserva. Sérgio Severo, árbitro do primeiro amistoso, dessa vez atuou como juiz de “goal” ao lado de Arary de Brito. Os juízes de goal serviam para tirar qualquer dúvida no caso da bola passar muito próxima às traves, já que não havia ainda redes nas traves. Como “referee” (para usar o linguajar do jornal) atuou Júlio Meira. Em nenhum momento o noticiário faz referência ao padrão das camisas, se o ABC atuava de branco, o América de vermelho. Algumas notícias da época citam que o América tinha camisas azuis nos seus primeiros jogos. Os dois times continuaram realizando amistosos, algumas vezes entre si, outras contra o Natal SC, até que surgisse uma Liga para oficializar as competições. Mas, aí é outra história.