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Tribuna do Norte 07/11/2004

O vandalismo tem nome e atende por "Máfia" e "Gang" 

RIVALIDADE - A guerra entre as torcidas organizadas extrapola o campo esportivo
CONFRONTO: A festa realizada nas arquibancadas dos estádios e dos ginásios quase sempre é ofuscada por cenas de violência nas redondezas das praças esportivas.
O cenário de “guerra” montado por integrantes de duas torcidas organizadas - rivais - dos principais clubes do Estado (ABC e América) é assustador. A maioria dos integrantes se fantasiam de torcedores andam aproveitando o movimento desordenado das facções, dentro e fora dos eventos esportivos, com o propósito de levar o medo à população, realizando pequenos furtos, sempre movidos pelas drogas - do álcool ao craque.

Em bando, formados em sua maioria por adolescentes, eles não cansam de propagar o terror em nome do orgulho próprio. Estes fatos, que podem ser facilmente detectados durante a movimentação destas torcidas, foram confirmados por um ex-integrante das “organizadas”, que preferiu não se identificar com medo de represália. “Eles costumam sair de casa portando armas ‘brancas’ e de fogo. E a maioria usam drogas”, ratificou o estudante universitário, 19 anos, torcedor do América, que fez a denúncia à reportagem da TN.

O vandalismo se alastra pelas arquibancadas, ruas e escolas de Natal, sem limites ou escrúpulos, enquanto a sociedade, atônita, assiste às cenas lamentáveis de violência, cada vez mais comuns. As ações desorganizadas provocadas na última quarta-feira, durante a partida de futsal entre ABC e América, no Machadinho, reascendeu a luz de alerta para o perigo que ronda a partir do crescimento destas facções.

De acordo com o mesmo estudante, alguns integrantes das torcidas, inclusive, sequer freqüentavam os eventos esportivos antes do crescimento desordenado das facções rivais. Dentre as ações promovidas pelo Ministério Público, Manoel Onofre Neto, promotor da infância e juventude, insistiu para que haja a provocação ao órgão, quando da prisão dos adolescentes desordeiros pela polícia.

“O que tem acontecido muito é que os jovens são presos, levados até a delegacia e depois solto. Aí fica difícil a identificação dos responsáveis pela infração. Nossa intenção é a de identificar os infratores para que, a partir daí, possa ser feito um acompanhamento diferenciado”, esclareceu o promotor. Os adolescentes identificados podem sofrer punições como “liberdade assistida” ou “prestar serviços sociais às comunidades”. Numa situação mais extrema, o adolescente infrator pode ser preso por 45 dias na Unidade de Internação Provisória.

Participação da família é fundamental na educação
Para o psicólogo clínico, Tacarijú de Mello Portella, o desvio do traço de personalidade do jovem começa em casa, ainda no berço. “É nos primeiros anos de vida que a criança desenvolve o embrião ético. Neste caso, depende muito da participação dos pais ou responsáveis. É essencial o contato físico e a participação da família no desenvolvimento da criança. Não adianta o ditado popular - ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Uma criança bem orientada e assistida, com formação ética, tem poucas chances de sofrer com desvio de personalidade ou apresentar traços agressivos”, explicou o psicólogo.

Mãe de uma adolescente de 14 anos e criada no sistema rigoroso de educação, a artesã Ana Helena impõem a mesma “lei da vida” a sua filha. “Fui educada numa época que o simples olhar de minha mãe já era suficiente para repreender algum ato ilegal que tinha cometido. Hoje em dia há muita liberdade aos jovens, que acham que pode tudo. Não pode ser assim. Educo meus filhos com o mesmo rigor da minha época. Estou sempre presente”, revelou Dona Ana, que “vigia” todos os passos dos filhos 24h no dia.

Ministério Público vai às escolas de ensino privado
O Ministério Público confirmou a denúncia publicada na TRIBUNA DO NORTE - edição da última sexta-feira - na qual professores da rede privada de ensino, que optaram pelo anonimato com medo de represálias, denunciam os freqüentes confrontos entre adolescentes integrantes das principais torcidas organizadas de ABC e América. Segundo o promotor Manoel Onofre Neto, da Infância e Juventude, o MP já realizou palestras em duas escolas particulares de Natal com o propósito de orientar e prevenir ações desorganizadas dos jovens.
“Estas palestras têm como objetivo orientar e prevenir. Entendemos que os principais provocadores dos atos de vandalismo ocorridos pela cidade, como na abertura dos Jogos Escolares (Jern’s), por exemplo, estão nas classes média e média alta”, destacou o promotor. Ainda de acordo com Manoel Onofre, estas visitas devem ser permanentes.

Segundo o relato de alguns professores da rede privada, adolescentes do ensino Fundamental II e Médio, que são integrantes das duas fações de torcidas rivais, estão intensificando os conflitos dentro das próprias instituições, na hora do intervalo. “Eles vão com camisas que identificam as torcidas por baixo da farda. E provocam uns aso outros com gritos de guerras, às vezes chegando as vias de fato”, relatou um dos professores.

Nas escolas da rede pública, além do confronto entre integrantes de facções rivais, a pichação de muros e banheiros com grafias que simbolizam as torcidas tem virado rotina

“Acordo de paz”
No dia 17 de março deste ano, o promotor de justiça, Wendell Beetoven Ribeiro Agra, recebeu, em seu gabinete, no Ministério Público, os representantes das principais torcidas organizadas do Estado, além de Nilson Gomes, presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol.

Em questão, mais uma etapa de discussão com o objetivo de extinguir o vandalismo das torcidas organizadas, que vêm aterrorizando Natal. Na ocasião, o promotor sugeriu soluções imediatas, entre elas, um estudo arquitetônico, que teria como objetivo dividir as torcidas, no Machadão, com uma barreira física.
Outra sugestão do promotor dizia respeito a uma reivindicação antiga das torcidas. “Vou acionar o Comando da Polícia Militar para propor reuniões com os representeantes das torcidas, principalmente, nas vésperas de clássicos”, destacava na época. Porém, o que se viu até então foi o crescimento destas facções de torcidas pelas quatro zonas de Natal e, como conseqüência, a propagação da violência urbana.

Por suas vez, os líderes de torcidas, que lamentaram a ocorrência freqüente de confrontos entre facções, afirmaram que a situação havia fugido ao controle. “Não há como ter um controle. Não podemos obrigar ninguém a se cadastrar. Cabe a vigilância das autoridades para inibir os torcedores que se infiltram em nossas torcidas com o objetivo de arrumar confusão”, declarou, na época, um dos líderes. A morte de um integrante da torcida do América provocou o encontro no Ministério Público.

Promotoria provoca ações
O promotor Manoel Onofre Neto, da Infância e Juventude, estabeleceu alguns “passos”, que devem ser seguidos para reduzir, em curto prazo, e extinguir, em médio prazo, as ações corriqueiras de violência, dentro e fora dos eventos esportivos, em Natal. Entre as ações estão: a participação da família no processo de educação e orientação do jovem; ações conjuntas das promotorias - criminal, da infância e juventude e da cidadania; revista intensiva nas entradas dos eventos; e provocação do MP para que os responsáveis sejam penalizados. “Só uma ação conjunta pode começar a dar um fim nisso tudo”, comentou o promotor, que pretende ainda vistiar as principais escolas de ensino privado de Natal com o intuito de prevenir e orientar. Objetivo e CEI já receberam a visita preventiva da promotoria.

1° PASSO

“A primeira coisa a ser feita é enfatizar o papel da família na orientação do jovem. Os pais devem estar mais próximos e atentos. Precisam acompanhar a educação do adolescente. Nessa conjuntura a família é determinante”

2° PASSO
“As três promotorias - criminal, da infância e juventude e da cidadania - devem realizar ações conjuntas e continuadas, discutindo todos os pontos com a participação dos líderes das torcidas, estabelecendo nova sistemática. Já estamos discutindo a melhor forma”

3° PASSO
“O MP exigirá o cumprimento da lei. Em todo o evento esportivo com público superior a mil pessoas deverá haver um sistema de revista - mecânico, através de detectores de metais e/ou manual, pela ação da polícia”

4° PASSO
“É necessário que haja uma ação mais incisiva da polícia, que, geralmente, não registra o caso nas delegacias. Com isso, o MP não tem como fazer o registro e responsabilizar os infratores. Para agir o MP precisa ser provocado”.