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RIVALIDADE
- A guerra entre as torcidas organizadas extrapola o campo esportivo
CONFRONTO:
A festa realizada nas arquibancadas dos estádios e dos ginásios quase
sempre é ofuscada por cenas de violência nas redondezas das praças
esportivas.
 O cenário de “guerra” montado por integrantes de duas torcidas organizadas - rivais - dos principais clubes do Estado (ABC e América) é assustador. A maioria dos integrantes se fantasiam de torcedores andam aproveitando o movimento desordenado das facções, dentro e fora dos eventos esportivos, com o propósito de levar o medo à população, realizando pequenos furtos, sempre movidos pelas drogas - do álcool ao craque.
Em bando, formados em sua maioria por adolescentes, eles não cansam de
propagar o terror em nome do orgulho próprio. Estes fatos, que podem ser
facilmente detectados durante a movimentação destas torcidas, foram
confirmados por um ex-integrante das “organizadas”, que preferiu não
se identificar com medo de represália. “Eles costumam sair de casa
portando armas ‘brancas’ e de fogo. E a maioria usam drogas”,
ratificou o estudante universitário, 19 anos, torcedor do América, que
fez a denúncia à reportagem da TN.
O vandalismo se alastra pelas arquibancadas, ruas e escolas de Natal, sem
limites ou escrúpulos, enquanto a sociedade, atônita, assiste às cenas
lamentáveis de violência, cada vez mais comuns. As ações
desorganizadas provocadas na última quarta-feira, durante a partida de
futsal entre ABC e América, no Machadinho, reascendeu a luz de alerta
para o perigo que ronda a partir do crescimento destas facções.
De acordo com o mesmo estudante, alguns integrantes das torcidas,
inclusive, sequer freqüentavam os eventos esportivos antes do crescimento
desordenado das facções rivais. Dentre as ações promovidas pelo Ministério
Público, Manoel Onofre Neto, promotor da infância e juventude, insistiu
para que haja a provocação ao órgão, quando da prisão dos
adolescentes desordeiros pela polícia.
“O que tem acontecido muito é que os jovens são presos, levados até a
delegacia e depois solto. Aí fica difícil a identificação dos responsáveis
pela infração. Nossa intenção é a de identificar os infratores para
que, a partir daí, possa ser feito um acompanhamento diferenciado”,
esclareceu o promotor. Os adolescentes identificados podem sofrer punições
como “liberdade assistida” ou “prestar serviços sociais às
comunidades”. Numa situação mais extrema, o adolescente infrator pode
ser preso por 45 dias na Unidade de Internação Provisória.
Participação da família é fundamental na educação
Para o psicólogo clínico, Tacarijú de Mello Portella, o desvio do traço
de personalidade do jovem começa em casa, ainda no berço. “É nos
primeiros anos de vida que a criança desenvolve o embrião ético. Neste
caso, depende muito da participação dos pais ou responsáveis. É
essencial o contato físico e a participação da família no
desenvolvimento da criança. Não adianta o ditado popular - ‘faça o
que eu digo, mas não faça o que eu faço’. Uma criança bem orientada
e assistida, com formação ética, tem poucas chances de sofrer com
desvio de personalidade ou apresentar traços agressivos”, explicou o
psicólogo.
Mãe de uma adolescente de 14 anos e criada no sistema rigoroso de educação,
a artesã Ana Helena impõem a mesma “lei da vida” a sua filha. “Fui
educada numa época que o simples olhar de minha mãe já era suficiente
para repreender algum ato ilegal que tinha cometido. Hoje em dia há muita
liberdade aos jovens, que acham que pode tudo. Não pode ser assim. Educo
meus filhos com o mesmo rigor da minha época. Estou sempre presente”,
revelou Dona Ana, que “vigia” todos os passos dos filhos 24h no dia.
Ministério Público vai às escolas de ensino privado
O Ministério Público confirmou a denúncia publicada na TRIBUNA DO NORTE
- edição da última sexta-feira - na qual professores da rede privada de
ensino, que optaram pelo anonimato com medo de represálias, denunciam os
freqüentes confrontos entre adolescentes integrantes das principais
torcidas organizadas de ABC e América. Segundo o promotor Manoel Onofre
Neto, da Infância e Juventude, o MP já realizou palestras em duas
escolas particulares de Natal com o propósito de orientar e prevenir ações
desorganizadas dos jovens.
“Estas palestras têm como objetivo orientar e prevenir. Entendemos que
os principais provocadores dos atos de vandalismo ocorridos pela cidade,
como na abertura dos Jogos Escolares (Jern’s), por exemplo, estão nas
classes média e média alta”, destacou o promotor. Ainda de acordo com
Manoel Onofre, estas visitas devem ser permanentes.
Segundo o relato de alguns professores da rede privada, adolescentes do
ensino Fundamental II e Médio, que são integrantes das duas fações de
torcidas rivais, estão intensificando os conflitos dentro das próprias
instituições, na hora do intervalo. “Eles vão com camisas que
identificam as torcidas por baixo da farda. E provocam uns aso outros com
gritos de guerras, às vezes chegando as vias de fato”, relatou um dos
professores.
Nas escolas da rede pública, além do confronto entre integrantes de facções
rivais, a pichação de muros e banheiros com grafias que simbolizam as
torcidas tem virado rotina
“Acordo de paz”
No dia 17 de março deste ano, o promotor de justiça, Wendell Beetoven
Ribeiro Agra, recebeu, em seu gabinete, no Ministério Público, os
representantes das principais torcidas organizadas do Estado, além de
Nilson Gomes, presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol.
Em questão, mais uma etapa de discussão com o objetivo de extinguir o
vandalismo das torcidas organizadas, que vêm aterrorizando Natal. Na
ocasião, o promotor sugeriu soluções imediatas, entre elas, um estudo
arquitetônico, que teria como objetivo dividir as torcidas, no Machadão,
com uma barreira física.
Outra sugestão do promotor dizia respeito a
uma reivindicação antiga das torcidas. “Vou acionar o Comando da Polícia
Militar para propor reuniões com os representeantes das torcidas,
principalmente, nas vésperas de clássicos”, destacava na época. Porém,
o que se viu até então foi o crescimento destas facções de torcidas
pelas quatro zonas de Natal e, como conseqüência, a propagação da violência
urbana.
Por suas vez, os líderes de torcidas, que lamentaram a ocorrência freqüente
de confrontos entre facções, afirmaram que a situação havia fugido ao
controle. “Não há como ter um controle. Não podemos obrigar ninguém
a se cadastrar. Cabe a vigilância das autoridades para inibir os
torcedores que se infiltram em nossas torcidas com o objetivo de arrumar
confusão”, declarou, na época, um dos líderes. A morte de um
integrante da torcida do América provocou o encontro no Ministério Público.
Promotoria
provoca ações
O
promotor Manoel Onofre Neto, da Infância e Juventude, estabeleceu alguns
“passos”, que devem ser seguidos para reduzir, em curto prazo, e
extinguir, em médio prazo, as ações corriqueiras de violência, dentro
e fora dos eventos esportivos, em Natal. Entre as ações estão: a
participação da família no processo de educação e orientação do
jovem; ações conjuntas das promotorias - criminal, da infância e
juventude e da cidadania; revista intensiva nas entradas dos eventos; e
provocação do MP para que os responsáveis sejam penalizados. “Só uma
ação conjunta pode começar a dar um fim nisso tudo”, comentou o
promotor, que pretende ainda vistiar as principais escolas de ensino
privado de Natal com o intuito de prevenir e orientar. Objetivo e CEI já
receberam a visita preventiva da promotoria.
1° PASSO
“A primeira coisa a ser feita é enfatizar o papel da família na
orientação do jovem. Os pais devem estar mais próximos e atentos.
Precisam acompanhar a educação do adolescente. Nessa conjuntura a família
é determinante”
2° PASSO
“As três promotorias - criminal, da infância e juventude e da
cidadania - devem realizar ações conjuntas e continuadas, discutindo
todos os pontos com a participação dos líderes das torcidas,
estabelecendo nova sistemática. Já estamos discutindo a melhor forma”
3° PASSO
“O MP exigirá o cumprimento da lei. Em todo o evento esportivo com público
superior a mil pessoas deverá haver um sistema de revista - mecânico,
através de detectores de metais e/ou manual, pela ação da polícia”
4° PASSO
“É necessário que haja uma ação mais incisiva da polícia, que,
geralmente, não registra o caso nas delegacias. Com isso, o MP não tem
como fazer o registro e responsabilizar os infratores. Para agir o MP
precisa ser provocado”.
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