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Tribuna do Norte 05/12/2004

Ídolos em extinção

Alberi - arquivo Tribuna do Norte
O sumiço dos ídolos no futebol potiguar parece ser uma espécie de maldição que vai durar por muitos anos. A nova realidade do futebol mundial está se mostrando cruel com os centros onde o poder financeiro das equipes basicamente inexiste. Nestes locais, craques estão se tornando artigo de luxo, pois um jogador que estiver acima da média dos demais sequer tem a possibilidade de vestir mais a camisa do seu time de origem e os que se destacam nos outros locais são considerados valiosos demais, portanto ficam fora do sonho de consumo das equipes do RN.

O voraz mercado futebolístico está cada vez mais precoce e clubes de médio e pequeno porte que formam atletas estão perdendo os direitos sobre os mesmos cada vez mais cedo. A idéia de fazer sucesso primeiro no time de coração para depois buscar novos rumos, é coisa do passado. A mentalidade agora passou a ser conseguir um bom empresário e fazer dos clubes de pequeno porte uma espécie de ponte-aérea para surgir em mercados mais promissores. Um bom exemplo disso está sendo vivenciado pelo ABC, que vem travando uma verdadeira batalha de bastidores para conseguir ficar com o zagueiro Kanu, um dos destaques da equipe campeã estadual da categoria Júnior, que deixou o Alvinegro para tentar a sorte e aparecer num clube do mercado carioca.

Esse tipo de acontecimento está se tornando corriqueiro, vejam o caso de Neto Potiguar do Bahia. Revelado nas escolinhas do professor Cacau, profissional de Educação Física que trabalhou com Ferdinando Teixeira, no ABC, em 1998, ainda no início da adolescência o garoto deixou Natal para passar por um processo de lapidação no Tricolor da Boa Terra. Essas escolinhas que surgem aos montes viraram concorrentes dos clubes e servem como núcleo de times de outros estados e para empresários.

Outro caso bastante precoce foi o do meiocampista Matuzalém, que depois de brilhar na disputa dos Jogos Escores do RN, teve uma passagem relâmpago pelas divisões de base do América para depois fazer sucesso no Vitória/BA. Após isso, o atleta potiguar se transferiu para Itália. Funcionando como uma empresa o Rubro-Negro baiano é o rei da pechincha, pega os bons valores ainda jovens com o valor lá embaixo, trabalham o atleta e o vendem.

O América tenta auferir algum lucro com a passagem de Matuzalém pelas suas divisões de base. O clube briga na Justiça para receber 45 mil dólares referente à parcela que os clubes formadores de atletas possuem quando o mesmo se transfere de uma agremiação para outra. O caso não se aplica a Souza, que assinou o primeiro contrato no América a data da primeira transferência está fora do prazo estabelecido pela lei.

Venda de jogadores é necessária aos clubes
Prestes a disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior, o ABC vai se transformar numa verdadeira vitrine de futuros craques expostos à venda. Talvez reconhecendo as limitações do futebol local em relação aos representantes dos demais estados, a diretoria do clube não esconde que a intenção de disputar o título é uma questão secundária e que o importante é o clube realizar um bom papel, os jogadores procurarem se destacar para que possam agradar a algum empresário e ser vendido. Gil, Zicarlo, Tiago e Hendrick são algumas apostas do presidente ao Alvinegro, Judas Tadeu, que disse necessitar do dinheiro da venda de jovens revelações para manter o departamento de profissionais em funcionamento.

“O ABC, nem nenhum time do mesmo porte dele, pode se dar ao luxo de ficar segurando jogador. Seja quem for, eles precisam ser vendidos para que o clube possa manter suas contas em dia. Quem não tem patrocínio e não consegue viver do que arrecada com a torcida, tem que procurar fazer dinheiro de uma outra forma e eu não conheço outra que não seja a venda de atletas formados em casa”, justificou o presidente alvinegro.

A administração de Judas Tadeu pode ser encarada com dois pesos e duas medidas. Se por um lado ela figura como a campeã de contratações de atletas oriundos de outros centros, número que atingiu a incrível média de 82 jogadores por ano no último triênio. Por outro não se pode esconder que ele implantou de vez a filosofia de exportador de valores.

Da relação de atletas que vestiram a camisa abecedista e foram vendidos para outros centros contam os nomes de Sílvio, Henrique, Moacir, Marcão, Geraldo Madureira, Ivan e Sandro. Este último vendido para o Cruzeiro por R$ 600 mil, que foi considerada a maior transação já feita por um clube potiguar. Apenas por curiosidade, vale salientar, que quando foi atuar pelo Rio Branco de Americana/SP, o meia Souza fez entrar no cofre do América R$ 45 mil.

“Importação” começou na era Machadão
Começou na era Castelão/Machadão, segundo semestre de 1972 o ciclo de contratação dos grandes jogadores oriundos do Rio, São Paulo, RS e Bahia, que aqui chegaram para reforçar ABC, América e até Alecrim FC. E não foi nenhuma mudança lenta na política financeira desses clubes. Pode-se até plagiar o humorista Chico Anísio com seu jargão “vapt vupt”. Só em 72 o ABC trouxe um time completo, além do treinador carioca Célio de Souza.
O primeiro título (o tricampeonato, porém foi conquistado por Wallace Costa), contando com uma equipe meio caseira, ou seja, Erivan, Preta, Edson, Josemar e Anchieta, William, Gonzaga e Alberi, Zemaria, Joilson, Baltazar e Soares.

Na abertura do Brasileiro (série “A”) o time era quase o mesmo, ou seja, Tião, Sabará, Edson, Telino e Anchieta, Maranhão, Danilo Menezes e Alberi, Zemaria, Elias e Moraes. Os ídolos a partir de 72 no Nacional foram Tião, Edson, Sabará, Maranhão, Danilo Menezes e Moraes, falecido há um ano. Ao ser vencedor do Seletivo contra o ABC, o América abriu os olhos e começou a contratar, mesmo sem evitar o tetra do rival. O ABC estava mais reforçado com Libânio, Jorge Demolidor, Telino, formando um timaço e endoidando a “frasqueira” . Para ser o novo time no Nacional, o América formou uma verdadeira seleção do Nordeste, com Santa Cruz, Edinho, Olímpio, João Daniel, Gilson Porto, Pedrada, Ivanildo “arara”, o ex-júnior David.

A partir de 74 o América nunca mais deixou de formar um grande time, tendo José V, Rocha na presidência, e uma sucessão de presidentes, considerados excelentes pelos torcedores e alguns comentaristas. Como exemplo temos: Jussier Santos, Henrique Gaspar, Dilermando Machado, Ruy Barreto, e nomes que não poupavam economias na busca de um título, como fizeram o deputado e presidente Aluízio Bezerra, Paiva Torres, Eudo Laranjeira José Wilson, Ruy Barbosa, Leonardo Arruda, entre outros.

Os importados
Relação dos jogadores mais caros vindos a partir de 73:

Otávio, Ivan Silva, Pedrada, Odélio, Mário Braga, Gilson Porto, Reinaldo, João Daniel, Drailton, Noé Soares, Noé Silva, Marinho Apolônio, Joel Ribeiro, Hélio Show, Cláudio Oliveira Jonas, Aloisio (camisa 9), Alexandre Mineiro, Caetano, Juca Show, Didi Duarte, Hélcio, Wassil, Lucio Sabiá, Cesar Etcheverry, Nicácio, Silva, Severinho, Robgol, Gito, Edilson Heleno, Dedé de Dora, Carioca, Sérgio Alves, Marcão, Adalto, Robson Mathis, Marcelo Fernandes, Schumaquer, Marcão. O Alecrim no bi de 85/86, contando com nomes de peso, como Odilon, Valdir Appel, Sabiá, Saraiva, Odilon, De Leon, Curió. Edinho, Jangada, Ronaldo, Alberi, Zé Roberto, Giovanni (ex-Vasco) Rildo, Jair Prattes.