Tribuna do Norte
10/outubro/2004
Everaldo Lopes
Repórter e Pesquisador

 

ÍNDICE

 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Paysandu, a filial do ABC

 

Fundado em 1928 a partir de dissidência do América, clube facilitou a vida alvinegra
Dissidentes - O primitivo Paysandu reunia somente jogadores dissidentes do América e a camisa era alvi-azulina pois um fundador era de Belém/PA.
De todos os clubes que um dia fizeram história no futebol do Rio Grande do Norte e hoje são extintos, sem dúvida alguma o mais famoso - porque não dizer também o mais polêmico foi o Paysandu FC. Além do detalhe de ter surgido de um grupo dissidente do América de Natal, o Paysandu se tornaria, anos depois, uma autêntica filial do ABC FC, obra da argúcia do dr. Vicente Farache. Só, que, o primitivo Paysandu tinha camisas nas cores azul e branca, já que um de seus fundadores e grande estimulador era Rodolfo Barradas, atleta que aqui chegou vindo de Belém do Pará.

O “Papão da Curuzu” havia sido fundado em 02/02/1914, alguns meses antes do América, este nascido em 14/07/1915. O segundo Paysandu, dessa coordenado por Farache, era alvinegro. O arguto cartola abecedista aproveitou o licenciamento do outro Paysandu e fundou o seu, apesar de protestos dos antigos defensores e até de torcedores do ABC, achando que não havia necessidade de Farache aproveitar o nome do antigo rival. Ficou só nos protestos, porque o nome Paysandu permaneceu. Ocorre que, naquela época não havia rigidez na legislação esportiva, até porque os jogadores eram todos amadores.

O primitivo Paysandu fez sua estréia no Torneio Inicio de 1928, quando foi inaugurado o “Juvenal Lamartine”, sagrando-se campeão, ao empatar com o ABC em 1x1 e perder nos escanteios. Ainda não haviam criado a fórmula de decidir competições com os chamados tiros livres da marca do pênalti. A primeira equipe azulina foi esta: Ayta, Barnabé e Renato Wanderley, Milton, Barradas e Frontin, Alfredo, Ruy, Pinheirão, Pimenta e Simão. Gil Soares de Araújo, que hoje mora no Rio de Janeiro e está perto de completar 100 anos, é a única testemunha ocular da fundação do Paysandu, sendo, inclusive, um dos que ajudaram a fundar o clube. Gil, americano, não aceitava que o América abandonasse o futebol para se transformar apenas num clube social, voltado para jogos de salão e festas.

Daí, os dissidentes, tendo à frente o próprio Gil e Renato Wanderley fundaram o Paysandu, estimulados também por Rodolfo Barradas, um paraense que era vidrado no Paysando do Norte. Um dia passou por Natal, gostou da cidade e tão logo conseguiu, veio residir nesta capital. Era um atacante de grandes virtudes, segundo o próprio Gil Soares, que conviveu com ele.

O segundo Paysandu foi ainda mais polêmico, dada sua condição de filial autêntica do ABC, tanto que nos seus cinco anos de duração até ser eliminado pela Federação, jamais derrotou o Alvinegro. Confrontando-se as escalações do Paysandu e do ABC, na época, verifica-se que quase sempre os mesmos atletas defendiam os dois clubes. Os demais filiados protestavam a jogada do dr. Vicente Farache, mas o regulamento era omisso, até porque não havia profissionalismo. Em todos os confrontos ABC x Paysandu há sempre goleadas, como se vê: 5x0 (dia 20/06/37), 9x0 (dia 23/06/37), 9x1 (dia 05/09/37), 6x0 (dia 01/05/38), novamente 6x0 (31/04/39). Finalmente, dia 17/11/42 a federação decretou a suspensão do Paysandu por três anos, pela visível falta de vontade de um dia derrotar o ABC.

No mesmo ato, o presidente da FND, capitão do Exército, Porfirio da Paz puniu também dr. Vicente Farache, acusado de mandar o Paysandu “entregar os pontos” a seu clube do coração, o ABC. A última formação desse clube foi esta: Salustiano, Miranda e Dorcelino, Contente, Teonilo e Adalberto, Valdemar, Deodato, Pageú, Tico e Valter. Desses jogadores, Tico, Pageú, Dorcelino e Adalberto jogaram anos seguidos pela “matriz”, no caso, o ABC. Basta confrantar as velhas escalações do Alvinegro.