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O
crime perfeito do Papão - Em 1991,
o ABC foi eliminado pelo Paysandu num jogo cheio de
irregularidades, em Belém/PA, na Curuzu. Prescrito o crime (12 anos depois), vem à tona a
verdade. Mas agora é tarde.
Juristas
e policiais afirmam que não existe "crime
perfeito". Enganham-se. Quando se unem
autoridades corruptas e corruptores competentes, esse
crime pode aparecer.
Podem
passar mil anos, mas a torcida do ABC jamais irá esquecer
a derrota sofrida para o Paysandu nas quartas-de-final da
segunda divisão de 1991 e do juiz baiano Manoel Serapião
Filho, acusado de ter prejudicado o time natalense na
ocasião. Mas o tempo se encarregou de repor a verdade
sobre a podridão existente nos bastidores do futebol
brasileiro, doze anos depois daquele fatídico cinco de
maio, o ex-presidente do Papão, Miguel Pinho, veio a
público e confirmou que o seu clube foi beneficiado por
esquema com a arbitragem, do qual Serapião era o
principal envolvido.
As
declarações de Miguel Pinho dadas ao jornal "O
Liberal" caíram como uma bomba e, além de comprovar
que o honesto geralmente sai perdendo dentro do futebol,
deu a certeza da má vontade com que os membros da
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tratam as
reivindicações e os protestos dos clubes potiguares. O
ABC, historicamente, tem sido a principal vítima da
"madrasta" CBF, mostrando que na hora da queda
de braços, o lado mais fraco nunca vence.
De
nada valeram os protestos da diretoria abecedista que, na
época, era comandada pelo empresário Eudo Larajeiras.
Mesmo com as imagens de TV e fotos mostrando as precárias
condições de segurança no estádio da Curuzu, o
alçapão do Papão, que teve uma parte do alambrado
derrubada pela torcida e dos grosseiros "erros"
de arbitragem cometidos por Serapião, o Tribunal Especial
da CBF, na época presidido por César Pinto Palhares fez
vistas grossas ao protesto dos potiguares e tratou de ir
cozinhando o ABC em banho-maria. A casa do futebol tinha
como presidente em exercício, Alfredo Nunes, que viu o
jogo no alçapão da Curuzu.
Apesar
do restante dos jogos do Paysandu terem sido realizados
sub-judice, o final da história mostrou que os trabalhos
de bastidores foram bem realizados. Pois nem o Papão foi
punido e o árbitro Manoel Serapião também ganhou como
prêmio da comissão de arbitragem, o direito de apitar a
final realizada entre Paysandu x Guarani.
Na
ocasião, Givanildo Oliveira que treinava o ABC,
protestava dizendo uma frase que mais parecia uma
premunição do que ainda estava por vir. "Ai mais
uma aberração daquelas cometida pelo árbitro que não
será punida. Amanhã ele estará novamente apitando,
cometendo suas barbaridades e prejudicando o trabalho
honesto dos outros."
Com
as declarações do ex-presidente Miguel Pinho, o que
parecia ser apenas mais uma daquelas coincidências do
futebol, hoje faz muita gente pensar na montagem de um
esquema de bastidores bem maior, até porque algumas
perguntas são difíceis de responder. Como um árbitro
que teve um trabalho contestado num jogo de quartas de
final, é escalado para apitar uma final de campeonato? Se
o fato de Manoel Serapião ter expulsado cinco jogadores
do Guarani no jogo final, gerava apenas alguma
desconfiança, uma vez que "errar é humano", o
que dizer agora depois do desmascaramento do esquema?
A
reportagem da Tribuna do Norte tentou, sem sucesso, um
contato com o árbitro Manoel Serapião, que hoje é juiz
da Junta de Conciliação da 5ª Sessão do Tribunal
Regional do Trabalho na Bahia. Já o árbitro carioca
Wagner Tardelli, outro citado pelo dirigente do Papão
como integrante do esquema, disse que vai processar o
ex-presidente do Paysandu, Miguel Pinho, por calúnia e
difamação.
O
responsável pelo departamento jurídico do ABC
atualmente, José Wilson Gomes Netto, ao saber da
revelação, disse que não existe mais qualquer
possibilidade do clube correr atrás do prejuízo, já que
o tempo foi suficiente para prescrever o crime.
"Ninguém pode fazer mais nada, só temos a lamentar
que fatos desses ocorram dentro do futebol. Mas o que
antes, para os abecedistas, não passava de uma mera
desconfiança, depois das declarações passaram a ser
certeza. Nosso time realmente perdeu a vaga porque foi
prejudicado pela arbitragem na época", disse José
Wilson.
Se
não pode recorrer quanto ao passado, José Wilson lembra
que o ABC continua travando uma briga na Justiça com a
CBF, por um caso que ele julga ter sido novamente
prejudicado. O fato envolve o Sampaio Corrêa, acusado de
ter utilizado um jogador de forma irregular nas partidas
contra América e Náutico, mas que escapou de perder os
dez pontos previstos no Código Brasileiro Disciplinar do
Futebol (CBDF), por ter alegado falta de citação sobre o
julgamento do atleta, dizendo que o fax expedido pela
secretaria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD),
informando sobre o julgamento do atleta, teria chegado à
Federação Maranhense de Futebol, após o período das 18
horas de uma sexta-feira. Apesar da infração ter sido
cometida numa terça e no sábado, dias posteriores ao
julgamento.
O
atual presidente do ABC, Judas Tadeu, também fez questão
de mostrar a revolta com a situação. "Esta é outra
prova do desrespeito que eles têm com o nosso futebol.
Por isso estamos nessa situação", comentou.
Leonardo
Arruda, ex-presidente do clube tem uma opinião incisiva
sobre o problema. Segundo ele, faltou determinação aos
dirigentes alvinegros e ao representante da FNF na
partida, Pio Marinheiro. "Alguém deveria ter tirado
o time de campo e levar a decisão para o tapetão. Faltou
comando", fala. Leonardo afirma, inclusive, que o
técnico Givanildo, por ter origens no Pará, teria se
acomodado ante a situação e subestimado a pressão sobre
os jogadores.
SEGUNDO
JOGO - Em Belém, a polícia interviu para o jogo continuar
Mas a
revelação mais importante feita por Leonardo Arruda e
que prova o despreparo do clube para evitar cair nessas
"armadilhas" foi a de que às 13h, quatro horas
antes do jogo, recebeu uma ligação de Bruno Corte Real,
que estava no Pará. "Ele me perguntou o que deveria
fazer pois o jogo teria sido mudado do Mangueirão para a
Curuzu. Disse que se na tabela constasse o jogo no
Mangueirão eles deveriam ir para lá e enviar um protesto
para CBF, ou deveriam fazer um protesto antes do jogo na
Curuzu e jogar sob-protesto", disse.
Vale
salientar que a CBF, já sob o comando de Ricardo
Teixeira, fez vistas grossas para a liminar conseguida
pelo Alvinegro na Justiça potiguar, pedindo a
paralisação do Brasileiro. A competição prosseguiu e o
time potiguar não conseguiu evitar o rebaixamento para
série C, em 2001. A multa estabelecida pelo
descumprimento da sentença por parte da CBF, hoje está
orçada em R$ 15 milhões, mas o processo se encontra
parado. "A ação se encontra parada aguardando o
julgamento de um agravo de instrumento apresentado pelo
ABC, que deseja que a Justiça potiguar seja o fórum do
julgamento da ação, não o do Rio de Janeiro, como quer
a CBF. De qualquer forma a briga continua e o julgamento
do mérito da questão ainda pode favorecer ao ABC",
informou o responsável pelo departamento jurídico do
clube que promete brigar até o fim das instâncias.
Alvinegro
já foi vítima em outras ocasiões
Ninguém
pode negar que duas coisas a CBF sabe fazer bem:
prejudicar o ABC e empurrar, quando existem outros
interesses, julgamentos com a barriga. O clube potiguar
que já foi vítima de uma dura suspensão de um ano por
ter usado um atleta em condições irregulares, não
conseguiu convencer ao Superior Tribunal de Justiça punir
o Sampaio Corrêa, num julgamento, que a exemplo do que
ocorreu contra o Paysandu, foi adiado várias vezes até o
desfecho da competição.
Representando
pelo advogado Walderedo Nunes, o Alvinegro entrou com uma
ação solicitando a suspensão do confronto entre
Paysandu x Americano, quatro dias depois o triste
espetáculo da Curuzu, dia 9 de maio de 1991. Mas, César
Palhares (assim com Luís Szeiviter, em 2001) negou o
pedido do ABC estabelecendo um prazo de 48 horas para o
Paysandu se defender. Se isso ocorreu ou não, a história
não registra, mas a CBF liberou as realizaçõesdas
partidas dos paraenses com o Americano.
O
novo julgamento foi remarcado para o dia 16 de maio, ou
seja dois dias após a semifinal, com Paysandu
classificado para final contra o Guarani. Porém, mas uma
vez a turma do tribunal especial resolveu adiar a análise
do mérito da questão, que passou para o dia 18, depois
para o dia 21 de maio, 28, até que, mais tarde, o
protesto acabou arquivado.
A
turma do Tribunal Especial da CBF encarregada em apreciar
o caso tinha a seguinte formação: César Roberto Pinto
(presidente), Antônio Carlos Coelho (representante do
Sindicato dos Atletas) Alcides Nunes (economista) e mais
Mário Alberto Pucheu e José Albuquerque Sampaio.
No
ano em que a moralidade no futebol brasileiro mais uma vez
foi obrigada a sair pela portados fundos, o ABC que vinha
de uma jornada invicta na competição, viu a chance de
disputar a semifinal da segundona, ir embora, justamente,
numa partida em que poderia perder até por um gol de
diferença. Já que possuía a vantagem de dois resultados
iguais pelo fato de possuir melhor campanha que os
paraenses.
O
Alvinegro, que vencerá a partida de Natal com gol de
Silvinho, chegou a largar na frente, mas permitiu que os
donos da casa virassem o placar. Serapião deu uma mão ao
Papão anulando um gol licito de Rildon. O Paysandu
conseguiu o gol da classificação aos 43 minutos do
segundo tempo (3 a 1), uma vez que necessitava de dois
gols de diferença.
"Ele continuará cometendo suas barbaridades e prejudicando o trabalho honesto". Givanildo Técnico do ABC, em 1991
"Ninguém
pode fazer mais nada, só temos a lamentar que
fatos desses ocorram dentro do
futebol".
José
Wilson atual Diretor Jurídico do ABC
"Esta
é outra prova do desrespeito que eles têm com o
nosso futebol. Por isso estamos nessa
situação".
Judas
Tadeu atual Presidente do ABC.
"Alguém
deveria ter tirado o time de campo e levar a
decisão para o tapetão. Faltou
comando".
Leonardo
Arruda Ex-presidente do ABC. |