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Jornal do Torcedor outubro de 2003  Edição 02 Ping-Pong Página 9

Negão Alberí: "Eu queria ser treinador"

O mais famoso camisa 10 do ABC, Alberi - conversa com o amigo Maciel Gonzaga
O pernambucano de Recife, Alberi, começou a carreira no Santa Cruz, mas alcançou o auge no "Mais Querido".

Alberi, um dos maiores craques do nosso futebol, único ganhador do troféu "Bola de Prata", jogando por um clube potiguar, no primeiro ano em que um time local estreiava no Nacional, em 1972, justamente o ABC, dá entrevista exclusiva ao repórter Maciel Gonzaga, e faz revelações surpreendentes.
Alberi José Ferreira de Matos, 58 anos, é funcionário da SEL. Nas horas vagas bate uma "pelada" com amigos no campinho da Base Naval e no master do ABC, que participa do campeonato da categoria no campo de futebol do Conjunto Jiqui(Zona Sul). Afastado do noticiário, diz que prefere continuar a vida ao lado dos amigos e distante do amargo "mundo da bola".
O JT procurou o "Negão", que, mesmo sendo arredio a entrevistas, conversou ao cair da tarde de quarta-feira, 15, no campo de futebol da Base Naval, com o seu amigo particular, o jornalista Maciel Gonzaga, do qual foi vizinho no bairro do Catolé, em Campina Grande(PB), no início dos anos 80, quando o craque defendia o Campinense.

Alberi: " A bola de Prata deve ser comemorada pelo Torcedor".
Gonzaga - Alberi, como você está vendo o nosso futebol hoje?
Alberi - Observo o futebol de hoje em decadência. Falta o incentivo para a prata de casa, desde o trabalho de formação do atleta. Não formamos mais jogador de futebol, mas atleta de futebol.
Gonzaga - O futebol do RN está a cada dia mais pobre?
Alberi
- Acho que não temos estrutura para competir com outros centros. Como também acho que não temos hoje um único jogador que leve a torcida para o Machadão. Todos estão no mesmo nível.
Gonzaga - E quem é o culpado por isso?
Alberi
- Os dirigentes dos nossos clubes profissionais, que preferem buscar jogadores em fim de carreira lá fora, em detrimento dos bons atletas que temos aqui. O RN sempre exportou bons jogadores, hoje preferimos importar.
Gonzaga - Alberi, você não gostaria de ser treinador de futebol?
Alberi
- Gostaria, mas nunca me deram a oportunidade. Fui auxiliar técnico do ABC nos anos 80 e tinha como meta ser treinador, mas, parece, que ninguém acreditou na minha proposta. Eu sigo a minha vida tranquilo, observando de longe as cabeçadas do nosso futebol.
Gonzaga - Se você fosse treinador de futebol seus atletas saberiam bater bem na bola? Alguns deles cobrariam faltas com maestria, o que sempre foi uma marca sua?
Alberi
- Ah! Sim. Não tenho a menor dúvida. Eu entendo que todo jogador de futebol tem condições de bater bem na bola. É só aprender com quem sabe. Mas muitos treinadores que estão aí nunca jogaram futebol e quando jogaram não foram bons jogadores. Eu cito muito o fato de que Zico e Roberto Dinamite treinavam mais bater faltas do que propriamente fazer coletivo. Os jogadores de hoje fazer o contrário, só se preocupam com a parte física e com rachão esquecendo de aprender bater na bola. Não só em faltas, mas até mesmo aprender fazer um cruzamento, dá um passe, tocar de primeira. Eu vejo isso com tristeza.
Gonzaga - E os 31 anos da "Bola de Prata"?
Alberi
- Acho que essa comemoração deveria ser muito mais do Rio Grande do Norte do que minha.
Gonzaga - Alberi, você se sente hoje uma pessoa esquecida?
Alberi
- Tudo o que eu fiz na minha vida até hoje não me arrependo. Se fiz algo de positivo para o futebol do RN cabe ao povo julgar. Tenho um família maravilhosa, amo os meus filhos e sigo a minha vida de cabeça erguida certo de que procurei cumprir com o meu dever. O resto não me interessa. 

NOTA DA REDAÇÃO:  O troféu foi instituído pela revista PLACAR em 1970, durante a Taça de Prata (Torneio Roberto Gomes Pedrosa).