Vicente Estevam
 Repórter de Esportes
Tribuna do Norte
29/06/03
 

ÍNDICE

 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Quando torcer é um alto risco 

 
Com problemas cardíacos e proibido de ir ao estádio pelos médicos, o ABC continua sendo a grande paixão da vida de "seu" Airton.

SONHO - Airton Araújo disse que espera estar vivo para ver a realização de dois grandes sonhos com o clube.
Em meio ao universo alvinegro, existem pessoas onde a ligação com o clube transcende a barreira da paixão e se situa, exatamente, no limiar entre a vida e a morte. Um bom exemplo disso é o aposentado Airton Araújo de Souza, 61 anos, que, devido a problemas cardíacos, foi aconselhado pelos médicos a evitar ir ao estádio em dias de jogos do ABC, pois fortes emoções não são recomendadas para quem possui problemas no coração. Apesar do perigo, seu Airton (como é mais conhecido entre os torcedores) acha que sua vida seria um poço de frustração caso não existisse o ABC.
Uma prova de que acompanhar os jogos do clube é uma situação de alto risco para seu Airton, ocorreu em 2002, quando ele sentiu um princípio de enfarto em plena arquibancada do Machadão. Mas a prudência acumulada com as experiências anteriores, evitou a instalação de um quadro mais grave. "Era um jogo de série B entre ABC e Fortaleza. Comecei a me sentir mal ainda com a partida em andamento, mas fiquei até o final. Depois segui rápido para casa, onde minha mulher e meus filhos providenciaram o atendimento médico e ficou comprovado que eu, realmente, estava enfartando", recorda o veterano torcedor.
Por não gostar de desobedecer às orientações médicas, o aposentado evita comparecer ao Machadão nos dias de jogos muito apelativos, como, por exemplo, os clássicos decisivos contra o América. "Desde de 1996, quando coloquei minha primeira ponde de safena não vou mais as decisões de campeonato. Nesses dias evito, até, escutar rádio o que para mim é pior do que estar no estádio. Na hora dos jogos procuro me distrair de outras formas como indo ao cinema ou para minha casa no interior. O resultado eu só fico sabendo no outro dia", revela, salientando que dessa forma o impacto é menor e, por isso, perfeitamente suportável.

COMANDO
- Apesar do grave problema de saúde, seu Airton é o atual presidente da Garra Alvinegra, que segundo ele foi a primeira torcida organizada instituída no Rio Grande do Norte. Comandando a facção, Airton Araújo - já depois de operado - foi bater no Maranhão, para acompanhar um confronto entre ABC e Sampaio Corrêa. Isso sempre ao lado do seu "fiel escudeiro" Hélcio Cabeludo, com quem divide a tarefa de comando da Garra.
A paixão pelo clube é tamanha, que seu Airton guarda na memória a data em que passou a torcer pelo ABC. Destaque igual só merecem as datas de aniversário de casamento, esposa, filhos e do próprio clube. "Comecei a torcer pelo ABC em 1955, no dia 5 de agosto motivado por um vizinho. Tinha 14 anos na época e fui acompanhar uma decisão com o Riachuelo no Juvenal Lamartine", recorda. Para dar um parâmetro de até aonde vai sua paixão pelo "Mais Querido", o presidente da Garra Alvinegra faz questão de frisar que: "Nem a Seleção Brasileira mexe tanto comigo quanto o ABC." Seu Airton disse ter acompanhado conquistas importantes do "escrete canarinho", mas salienta que nada se compara a uma grande vitória do ABC sobre o América ou a conquista de um título do Alvinegro.

LEMBRANÇA
- Ao longo dos 47 anos de torcedor, o aposentado Airton Araújo disse ter acumulado muitas alegrias, mas também possui alguns motivos para lamentar. Durante toda essa trajetória, ele cita o rebaixamento para série C, em 2002, como a maior frustração da sua vida de "arquibancada". Como as alegrias são inúmeras, Airton Araújo cita a realização do jogo com o Santos de Pelé em 1972, no Machadão, como um grande momento de alegria. "Aquele jogo foi inesquecível, pois tive a honra de ver Pelé jogar contra o meu ABC. Essa lembrança eu vou guardar para sempre", disse. E seu Airton não estava blefando, pois no momento em que começou a falar sobre o assunto, puxou de dentro de um plástico onde guarda o documento de identidade, uma anotação com os detalhes sobre aquela partida. "Está tudo aqui anotadinho", disse mostrando o papel, "foi o maior público que o Machadão já teve, deviam ter ali no estádio umas 55 mil pessoas. Só o público pagante foi de 49.150 torcedores", afirma.

SONHO - São dois os grandes sonhos do torcedor que saiu da cidade de São Rafael em 1950 para se apaixonar pelo ABC, ambos podem ocorrer em 2004. O primeiro é ver o retorno do Alvinegro à Série B e o segundo é ver a complementação da obra do estádio Frasqueirão. "São os meus maiores anseios no momento. Confio muito no presidente Judas Tadeu e, se Deus quiser, sei que ele vai montar um time capaz de levar o ABC para disputas a série B no próximo ano. Já com relação ao estádio, o projeto está em pleno andamento e não tem mais volta. Dia 29 de junho de 2004 ele estará sendo aberto ao grande público para alegria de toda nação abecedista", destaca.
Seu Airton não esconde que espera a realização desse sonho com ansiedade e costuma brincar com os amigos dizendo que a alegria neste dia vai ser tanta, que ele já vai comparecer a inauguração do Frasqueirão de paletó e gravata, porque se morrer neste dia é só colocá-lo dentro do caixão e realizar o velório ali mesmo, na sede do clube. Detalhe: o torcedor guarda como recordação a foto do primeiro buraco feito pela construtora para dar início a fundação do futuro estádio. "Eu não me considero um fanático, sou apenas torcedor preocupado com o clube". Será!