Tribuna do Norte
23/03/2003
George Fernandes
Reporte

 

ÍNDICE

 
 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Estádio do ABC: Solução ou problema?

 

OBRAS - Parte da estrutura das arquibancadas do estádio já foi concluída pela construtora.
O sonho de ter o próprio estádio é comum a qualquer clube de futebol. As altas taxas cobradas nos aluguéis dos estádios públicos "tira o sono" de qualquer dirigente brasileiro. Em Natal, o ABC saiu na frente e já está transformando em realidade o sonho do "Frasqueirão". Mas, a diretoria alvinegra não tem 100% de apoio. Há quem seja contra a construção do estádio. E não é gente do rival América, mas do próprio ABC. É o caso do administrador e funcionário do Banco do Brasil, Heriberto Gadê de Vasconcelos. Com a ajuda da matemática financeira e baseado em números hipotéticos, mas consistentes, o torcedor alvinegro, Pós-graduado em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas - FGV, Administração Geral e Gestão Pública pela Universidade de São Paulo - USP, chegou a conclusão de que a construção de um estádio não amenizaria as despesas do clube. 
Um relatório - "Ter ou não ter um estádio... Eis a questão" - de cinco páginas detalha seus argumentos contrários a construção do estádio. As primeiras considerações levam em conta a localização, a acomodação e o tipo de competição (no caso do relatório, a Série C do Campeonato Brasileiro).

"O ABC deverá trabalhar com ingressos mais em conta, pois o estádio não é tão central quanto o Machadão e, certamente, as acomodações do estádio do ABC não serão mais adequadas que as do Machadão, apesar de poderem ser mais limpas", diz o texto do relatório. E mais: "nem todos os adversário vão querer jogar no estádio do ABC, reduzindo sua utilização apenas para os jogos que tiver o mando de campo".
Heriberto relata que "apesar do ‘Frasqueirão’ está sendo projetado para receber um público inicial de 9 mil pagantes, não poderia considerar que o estádio estaria lotado em todos os jogos do ano". Para reforçar os cálculos, ele considerou ainda que as rendas obedeceriam a seguinte lógica: "a) lotação de 50% do estádio em todos os jogos do ano; b) as receitas decorrente de quatro jogos mensais; c) uma temporada de dez meses, excluindo-se o mês de férias e o de pré-temporada. Ressalte-se que nos últimos anos o ABC não tem jogado nem quatro jogos por mês, nem mesmo dez meses por ano. Assim considero que a receita está um tanto superestimada". Ainda foram consideradas para a base de cálculos as rendas provenientes da isenção da taxa de utilização do campo (2,5%) e do aluguel de dez lojas no valor de R$ 500,00 mensais. Outra fonte de renda para a base de cálculos exibida no relatório seria com aluguel do estádio para eventos e shows.

Mesmo reconhecendo a simplificação dos dados apurados, Heriberto conclui o seu relatório dizendo que "o estádio do ABC não é um bom negócio. Gostaria de conhecer experiências superavitárias com estádios de futebol. Gostaria ainda de conhecer casos de clubes que lucram com os seus estádios".
Ele sugere ainda que os recursos recebidos no negócio com a Ecocil poderiam ser aplicados no mercado financeiro (poupança, sugerida no relatório) ou revertidos para um possível arrendamento do Machadão. "Depois de construído, o estádio não agregará nenhum centavo ao terreno do ABC. Para se ter uma idéia basta verificar que o histórico estádio de Wembley foi derrubado para a construção de um estacionamento", finalizou.


Frasqueirão: "Arena Multiuso" - A escolha do Brasil como forte candidato à sediar a Copa do Mundo de 2014, a aprovação do Código do Torcedor e da Medida Provisória pela moralização do futebol brasileiro, na Câmara Federal, são temas recentes que trouxe à tona uma nova discussão sobre a estrutura dos estádios brasileiros. A grande maioria "grita" por socorro. Exceção feita uma minoria, casos do Maracanã ou Mangueirão, que sofreram uma pequena "cirurgia". Apesar do esforço da Secretaria de Esporte e Lazer - SEL, o Machadão, em Natal, ainda se recente de uma reforma geral. De acordo com alguns especialistas, dezenas de milhões de reais são necessários para revitalizar o estádio Municipal, que tem recebido severas críticas dos dirigentes pelas altas taxas cobradas com o aluguel do campo. O dinheiro arrecadado durante os jogos é o que ainda mantém os estádios públicos "vivos". Para se livrar dos freqüentes prejuízos sentidos nas rendas, o ABC permutou parte do terreno da Vila Olímpica com o objetivo de construir o seu estádio. O "Frasqueirão", nome escolhido para o novo estádio em homenagem a torcida alvinegra, nasce com a pompa de "Arena Multiuso" - expressão que vem sendo muito utilizada para definir os modernos estádios de futebol no Brasil. 

A "Arena da Baixada", estádio do Atlético Paranaense, é o melhor exemplo deste tipo de estádio, hoje, no País. Lá, o torcedor não só tem toda a comodidade para assistir aos jogos do seu time, como também pode fazer compras nas lojas do Shopping da Baixada ou escolher uma das 38 lanchonetes construídas no subsolo do estádio para saborear um delicioso "sanduiche". O projeto "Frasqueirão" - estádio com capacidade inicial para 9 mil torcedores, que deverá ser entregue em meados de 2004 - já saiu do papel. Os torcedores alvinegros "estufam o peito" e se enchem de orgulho, quando, ao passar pela Rota do Sol (Ponta Negra), observam boa parte do primeiro módulo com "jeitão" de arquibancada.

Parceria - Mesmo longe de ser considerado uma "Arena da Baixada", o "Frasqueirão" conta com um mínimo de estrutura se comparado aos padrões exigidos pela FIFA para estádios modernos. O estádio do ABC nasceu de uma parceria entre o clube e a construtora Ecocil, que permutou parte do terreno da Vila Olímpica para construir prédios residenciais. Com um estádio próprio a diretoria do ABC espera minimizar as despesas como as taxas de campo cobradas pelo aluguel do Machadão - mínimo de mil reais, de acordo com a Federação Norte-rio-grandense de Futebol e a Secretaria de Esporte e Lazer, responsável pela administração do estádio. "As taxas cobradas no Machadão inviabiliza a arrecadação dos clubes, que precisam do dinheiro apurado com as rendas para sobreviver", alegou Judas Tadeu, presidente do ABC. As rendas ainda são a principal fonte de receita dos clubes no Rio Grande do Norte. As obras dos módulos (1 e 2), que serão financiadas e construídos pela Ecocil, foram avaliadas em 4 milhões e 700 mil reais.

Área construída terá 25.000 m2 e um total de 24 mil lugares - O novo estádio do ABC vai ocupar uma área de 25.000 m2 de um total de 110.000 m2 da Vila Olímpica e foi projetado para receber, no máximo, 24 mil torcedores. É bom lembrar que a FIFA exige uma capacidade mínima de 30 mil torcedores para jogos da Copa do Mundo, enquanto a CBF é menos exigente: 15 mil. O projeto foi dividido em quatro setores. Além do estádio, um estacionamento (25.000 m2), uma área comercial (14.500 m2) e o clube (45.500 m2). 
De acordo com a comissão que acompanha as obras do "Frasqueirão", o estádio será erguido em quatro módulos. O primeiro módulo de arquibancada terá capacidade para acomodar 4.450 torcedores e fica do lado da pista (Rota do Sol). O segundo módulo, com capacidade para 4.448 espectadores, ficará, justamente, do lado oposto, onde provavelmente se concentrará a "Frasqueira". Os módulos 3 (2.468 torcedores) e 4 (2.468 pessoas) serão construídos com recursos do próprio ABC, que também será o responsável pelas obras do campo de jogo e da iluminação do estádio. A receita para construir o campo e colocar as luminárias sairão das campanhas que a diretoria do ABC fará com os torcedores e conselheiros. A venda das cadeiras cativas é a primeira delas e deve estar nas ruas, segundo informou Judas Tadeu, nos próximos dias, depois da chegada da maquete do estádio, que está sendo confeccionada em Recife. A imobiliária Abreu Imóveis, que firmou uma parceria com o clube, será responsável em comercializar as cadeiras. 

Situação dos estádios é preocupante - Com a regulamentação do Código do Torcedor, os estádios voltaram aos centros das atenções no Brasil. O quadro geral é preocupante. A situação dos estádios em todo o país é a cópia fiel do futebol brasileiro, que já sonha com a possibilidade de voltar a sediar uma Copa do Mundo (2014). O conforto da grande maioria dos estádios brasileiros é mínimo. Em geral, o que se vê são estádios onde a torcida se senta no cimento, debaixo do sol e da chuva, tem poucos banheiros e telefones públicos à disposição e não possui uma boa estrutura de bares e lanchonetes. Em muitos casos, as administrações dos estádios sequer são capazes de fornecer informações básicas, como o nível de iluminação noturna (a do Machadão está cada vez pior). A esperança da maioria do povo brasileiro, que curte o futebol, é de poder, um dia, ser respeitado a ponto de ter o mínimo de decência quando pagar por um ingresso para assistir a uma partida do seu time de coração. Como Eduardo Rocha, integrante da comissão de futebol do América, costuma dizer, "infelizmente, o futebol brasileiro ainda é dirigido e cercado pelo amadorismo". Neste início de século 21 a consciência política parece ter evoluído e o torcedor já pode contar com duas armas importantes no combate aos abusos praticados pela maioria dos dirigentes de futebol e ao desconforto nos estádios: o Código do Torcedor e o relatório de "Recomendações técnicas e exigências para a construção e modernização de estádios de futebol", elaborado pela FIFA em 1995.