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Tribuna do Norte
29/09/2002
Vicente Estevam Repórter

O que afastou o torcedor natalense dos estádios?

O problema é evidente e aumenta a cada ano, mas ninguém sabe explicar o motivo que está fazendo os natalenses se recusarem a comparecer ao Machadão em grande número. 
O problema é evidente e aumenta a cada ano, mas ninguém sabe explicar o motivo que está fazendo os natalenses se recusarem a comparecer ao Machadão em grande número. 

Ir para o estádio, em alguns jogos, virou sinônimo de solidão, tão fraco é o público nos jogos - Muita gente envolvida no meio esportivo mostrou um certo ar de estarrecimento quando o presidente da Federação Norte-rio-grandense de Futebol (FNF), Nilson Gomes, disse que a situação do futebol local era desesperadora. Mas a afirmação foi realizada com base em números que apontam arrecadação irrisórias nas partidas de futebol e que dão início a um perigoso ciclo de desestruturação para os clubes potiguares, que devido as dificuldades para arranjar patrocinador, ainda dependem muito do dinheiro que arrecadam nos estádios.
O fato é que nos últimos dez anos, a torcida vem sumindo. Sem o comparecimento do público no estádio, o produto fica inviável para os empresários, e com as baixas arrecadações as equipes ficam com seu poder de contratação cada vez mais reduzido, pois são obrigadas a limitar a faixa salarial dos atletas e não conseguem mais trazer jogadores de expressão no mercado brasileiro.

Machadão - 1998: A média de público começou a girar em torno dos 5 mil pagantes.
Seria culpa da nova ordem do futebol brasileiro, onde as televisões entraram como principais associadas dos clubes e transmitem  jogos todos os dias, fomentando cada vez mais o surgimento do torcedor da poltrona. É difícil dizer, mas vale a pena lembrar que, em meados da década de 90, quando o sinal das transmissões não podiam ser aberto para as praças onde estivessem sendo realizados jogos, os dirigentes de ABC e América, principalmente, já ocupavam espaços na imprensa convocando o torcedor a comparecer ao estádio em maior número. Coincidentemente, a vertiginosa queda do interesse do público potiguar pelo futebol teve início no período entre 1985 e 1986, quando foram iniciadas uma série de modificações nos regulamentos da Confederação Brasileira de Futebol, e os campeonatos estaduais deixaram de ser qualificativos para disputa do Campeonato Brasileiro. Os ajustes, se fizeram bem para os grandes clubes situados nas regiões Sul e Sudeste, tiveram efeito contrário nos demais cantos do País, principalmente no Nordeste, onde o futebol sempre contou com um dedo de amadorismo. Na década passada, o maior público que os clubes conseguiram levar a uma decisão de Campeonato Estadual foi de 15.098, registrado no ABC x América de 1993. Mas daí em diante o interesse pelas partidas, principalmente pelas decisões só fez decrescer. O mesmo confronto entre os dois tradicionais rivais três anos mais tarde, também pela decisão do estadual, só conseguiu atrair a atenção de 3.232, o que eqüivale a, praticamente , 30% do público de 93. Já na atual década, o número de torcedores nas finais teve uma pequena melhora, registrando o comparecimento de 5.909 torcedores ao confronto entre Corintians de Caicó x ABC, no estádio Dinarte Mariz, em 2001. Essa média é quase a mesma da finalíssima de 1998, quando 5.862 natalenses foram ao Machadão acompanhar ABC x Baraúnas, mas nem de longe chegam perto do público desejado. Ou seja, de repente, o estádio João Cláudio de Vasconcelos Machado ficou muito grande para abrigar os jogos dos times potiguares. A fase do "compre que a torcida paga" se esgotou e, os dirigentes que ousaram a desobedecer a nova ordem, mergulharam os clubes em grave crise financeira que, ainda hoje, se refletem nas administrações. O América, por exemplo, tenta pagar dívidas trabalhista contraídas há cinco anos e o Alvinegro, embora com menos problema neste campo, ainda tenta levantar recursos para quitar os prejuízos contraídos com a sua recente queda para terceira divisão. Num piscar de olhos, os Campeonatos Estaduais que eram responsáveis pela grande fonte de arrecadação dos clubes, passou a ficar deficitário. O América campeão da atual temporada, segundo o presidente da comissão de futebol, Eduardo Rocha, fechou a disputa de 2002 com um prejuízo beirando os R$ 37 mil, coberto graças a sobra de caixa registrada na cota recebida pela disputa do Campeonato do Nordeste, R$ 650 mil, e que passou a ser a grande fonte de sustentação dos dois maiores clubes potiguares. As maiores vítimas desse desinteresse dos torcedores pelo futebol local são os clubes de médio porte, como o Alecrim, que conquistou os títulos estaduais de 85 e 86, mas que de lá para cá, apenas luta para manter viva uma tradição de 86 anos. Para não se licenciar da FNF, o Verdão está sendo obrigado a se contentar com uma estrutura semiprofissional, se sujeitando a jogar nas preliminares das partidas de ABC e América, por não conseguir dinheiro suficiente nem para arcar com as despesas de arbitragem e as chamadas taxas de campo. Para dar uma idéia mais clara da dramaticidade da situação, basta dizer que a receita do Alecrim no período de 1 de janeiro a 20 de junho de 2002, foi de R$ 20.311,52. 

Marizão - 2001: Em Caicó, foram registradas as maiores rendas do certame.
Neste bolo está incluso o repasse de R$ 14.160,12 realizado pelo presidente do conselho deliberativo e diretivo do clube, Severino Lopes da Silva. Por causa do futebol, o clube ainda tenta se livrar de dívidas trabalhistas com alguns ex-funcionários que chegam a casa dos R$ 100 mil. Dirigentes divergem quanto as soluções Diante da complexidade do assunto sobre o motivo do sumiço do torcedor dos estádios no Rio Grande do Norte, nem os dirigentes de ABC e América conseguiram chegar a uma conclusão unificada e as sugestões para atacar o problema seguem caminhos completamente opostos. E quando o diretor financeiro da comissão de futebol do América, Tiburcio Batista, acha que o preço cobrado pelo ingressos não serve de justificativa para o baixo interesse do público. O vice-presidente de futebol do ABC, Emilson Tavares, defende a tese de que só uma redução drástica no preço dos ingressos, pode servir de atrativo para o grande público voltar a prestigiar os clubes potiguares. Vejamos o que pensam os dois dirigentes sobre as questões levantadas pela reportagem da Tribuna do Norte: 

TRIBUNA DO NORTE — A redução no preços dos ingressos pode ser um chamativo aos torcedores?

Tibúrcio Batista— Nós já fizemos experiência com preços de ingressos a 5, 6, 7, 8 e 10 reais. O público não cresce mais que 20%, obviamente, se você considerar que as despesas permanecem as mesmas e a folha de pagamento também, baixar o preço dos ingressos na ordem de 40 ou 50%, para ter um acréscimo de público que a gente registrou com as promoções, não é compensatório para o clube. Para um clube que tem compromissos a saldar, é melhor que o estádio esteja praticamente vazio mas que a receita no final das de tudo ajude a quitar as contas. Neste Brasileirão o ABC vem cobrando R$ 6,00 e o público não vem sendo o esperado, acredito que a questão não seja o preço do ingresso. 

Emilson Tavares— Num estado como o nosso, onde o dinheiro circula com dificuldade e só quem vai ao estádio, com freqüência, é aquele torcedor de baixa renda, já que aqueles de maior poder aquisitivo preferem ficar em casa assistindo os jogos da TV e depois saber do resultado dos jogos locais pelo rádio ou pelos jornais. Acredito que o preço do ingresso a R$ 10,00 inviabiliza a presença maciça dos torcedores aos estádios. Um torcedor assalariado não tem a menor condição de comparecer a jogos realizados todas as quartas-feira e domingos, por que isso pesa muito no orçamento doméstico. Ninguém vai deixar de comprar comida para os seus filhos para ir ao futebol. Isso é óbvio.
TRIBUNA DO NORTE — Vocês acreditam que o nosso futebol não possui um nível satisfatório para o torcedor? 

Tiburcio Batista — Não diria que o elenco dos clubes estão fracos, digo que estão dentro da atual realidade dos nossos clubes. Talvez a falta de uma grande estrela, aquele jogador que a gente costuma dizer que chama público. Isso realmente faz com que o público compareça em número maior ao estádio, mas a realidade é essa. O América já tem arriscado muito, nós trouxemos alguns jogadores em cima de pesquisas e informações que no final não rederam o que a gente esperava, caso do Evandro Brito, que marcou 24 gols disputando o campeonato gaúcho e a copa Sul-Minas e que não acertou com a camisa do América.

Emilson Tavares — Nós estamos realizando um trabalho de médio prazo, investindo na revelação de jogadores e o nível não é o mesmo de alguns anos atrás, quando tínhamos uma equipe com vários atletas renomados. Mas acho que o preço praticado pelo ABC, cobrando R$ 6,00 pela arquibancada, dá para tentar trazer o torcedor de volta. Apesar do preço não corresponder com a necessidade orçamentária do clube, nós temos possibilidade de atrair a massa trabalhadora ao estádio e, com o público presente, poderemos atrair a atenção de alguns patrocinadores dispostos a divulgar suas marcas. Por enquanto nós estamos aliando um orçamento compatível com a nossa receita, porque milagre não existe mais dentro do futebol e abnegados como o presidente Judas Tadeu, que tira dinheiro do próprio bolso para cobrir as despesas do clube, também estão acabando.