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Quadrantes -
Sanderson
Negreiros -
Numa parede em
que o musgo faz
mais residência,
parede
desolada
como escultura
do vento,
permanecendo em
pé como muro de
pé quebrado,
reli durante 40
anos seguidos, a
inscrição: ABC.
Exatamente nesse
tempo inteiro,
que as três
letras foram
fixadas,
inclusive o C
escrito ao
contrário.
O que revela a
intenção de
quem, humilde
torcedor, fixou,
ali, a emoção
intacta pelo
time mais
querido.
Resistente aos
sóis mais
inclementes,
ferindo nos
verões amargos a
necessidade de
sobreviver,
nunca se
diluindo nas
águas de março
ou nos invernos
violentos de
junho, a
inscrição lembra
constantemente,
pelo menos a
mim, o quanto
valem e
significam as
três letras
iniciais do
alfabeto como
definição da
vida e alegria
do natalense.
Por mim, não
posso perder
mais nunca o
endereço daquele
desenho. O ABC
paira sobre
minha vida como
tentativa
contínua e
incessante para
eu compreender o
coração selvagem
da vida. O
branco e o negro
decidem pela
sorte que faz do
homem uma
aventura
insondável.
A gente enxuga
as lágrimas e
fabrica emoções
inolvidáveis, só
em recordar as
duas cores, mais
do que
gloriosas,
superiores a
qualquer
preferência ou
situação de
gosto ou arte .
Quem não se
lembra do
maestro
Jorginho, em
tardes
domingueiras no
Juvenal
Lamartine,
anulando a lei
da gravidade,
destruindo a
teoria da
relatividade de
Einstein,
minimizando o
teorema de
Pitágoras, as
equações de
Newton e as leis
copernianas de
gravitação? Um
homem pequeno,
perdido na sua
simplicidade,
meditativo até,
simplório
anônimo dentro
da vasta raça
universal, fazia
com os pés uma
parábola que não
estava nos
cálculos da
geometria
euclidiana... E
ele só podia
fazer tudo isso
no ABC - pela
alma que nesse
time circula,
pelo sangue
generoso de seus
mártires (quando
perdemos as
grandes decisões
para o América),
pelo amor
solitário preto
e branco, pela
ventura de um
dia se ter sido
abecedista e
visto a tarde de
domingo ser
festa mais do
que natalense:
planetária. De
ter a saudade de
tudo isso no
velho campo do
Juvenal
Lamartine. Na
velha inscrição,
revista e
revisitada todos
os dias, deixei
sempre um pedaço
do que em mim é
aspiração pela
sinceridade,
pela justiça,
pelo senso comum
de
universalidade.
E nada melhor do
que isto nos é
dado pelo
esporte. E, no
futebol, pelo
ABC. Pois todos,
alvos e negros,
somos
descendentes
incontestáveis
da Revolução
Francesa. E o
ABC não é mais
nem um retrato
na parede.
E hoje? Um
silêncio ecoa
sem revelar seu
nome, seu grito
de gol, sua
bandeira feita
de uma brisa
prisioneira e
que só circula
entre as dunas e
o campo
envelhecido do
melancólico
estádio do Tirol.
Onde certa vez,
ouvi, através de
entrevista de
Mário Dourado,
repórter de
campo - como se
dizia -, uma
entrevista
gloriosa. Num
jogo noturno
entre o ABC e o
Sapé Futebol
Clube, Preta, o
fubeque
principal, ao
ser indagado
como se
encontrava
técnica e
psicologicamente
- como sói
acontecer -,
respondeu,
enfático: - Acho
que vamos
perder. Nós
nunca jogamos
com luz. Estamos
todos
encandiados. Os
abecedistas da
velha guarda,
remanescentes da
Guerra do
Paraguai, é que
estão
encandiados para
sempre. Até hoje |