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Tribuna do Norte 21/04/2002

ABC, mais do que um nome

Quadrantes - Sanderson Negreiros - Numa parede em que o musgo faz mais residência, parede desolada como escultura do vento, permanecendo em pé como muro de pé quebrado, reli durante 40 anos seguidos, a inscrição: ABC. Exatamente nesse tempo inteiro, que as três letras foram fixadas, inclusive o C escrito ao contrário.

O que revela a intenção de quem, humilde torcedor, fixou, ali, a emoção intacta pelo time mais querido.
Resistente aos sóis mais inclementes, ferindo nos verões amargos a necessidade de sobreviver, nunca se diluindo nas águas de março ou nos invernos violentos de junho, a inscrição lembra constantemente, pelo menos a mim, o quanto valem e significam as três letras iniciais do alfabeto como definição da vida e alegria do natalense. Por mim, não posso perder mais nunca o endereço daquele desenho. O ABC paira sobre minha vida como tentativa contínua e incessante para eu compreender o coração selvagem da vida. O branco e o negro decidem pela sorte que faz do homem uma aventura insondável.
A gente enxuga as lágrimas e fabrica emoções inolvidáveis, só em recordar as duas cores, mais do que gloriosas, superiores a qualquer preferência ou situação de gosto ou arte . Quem não se lembra do maestro Jorginho, em tardes domingueiras no Juvenal Lamartine, anulando a lei da gravidade, destruindo a teoria da relatividade de Einstein, minimizando o teorema de Pitágoras, as equações de Newton e as leis copernianas de gravitação? Um homem pequeno, perdido na sua simplicidade, meditativo até, simplório anônimo dentro da vasta raça universal, fazia com os pés uma parábola que não estava nos cálculos da geometria euclidiana... E ele só podia fazer tudo isso no ABC - pela alma que nesse time circula, pelo sangue generoso de seus mártires (quando perdemos as grandes decisões para o América), pelo amor solitário preto e branco, pela ventura de um dia se ter sido abecedista e visto a tarde de domingo ser festa mais do que natalense: planetária. De ter a saudade de tudo isso no velho campo do Juvenal Lamartine. Na velha inscrição, revista e revisitada todos os dias, deixei sempre um pedaço do que em mim é aspiração pela sinceridade, pela justiça, pelo senso comum de universalidade. E nada melhor do que isto nos é dado pelo esporte. E, no futebol, pelo ABC. Pois todos, alvos e negros, somos descendentes incontestáveis da Revolução Francesa. E o ABC não é mais nem um retrato na parede.
E hoje? Um silêncio ecoa sem revelar seu nome, seu grito de gol, sua bandeira feita de uma brisa prisioneira e que só circula entre as dunas e o campo envelhecido do melancólico estádio do Tirol. Onde certa vez, ouvi, através de entrevista de Mário Dourado, repórter de campo - como se dizia -, uma entrevista gloriosa. Num jogo noturno entre o ABC e o Sapé Futebol Clube, Preta, o fubeque principal, ao ser indagado como se encontrava técnica e psicologicamente - como sói acontecer -, respondeu, enfático: - Acho que vamos perder. Nós nunca jogamos com luz. Estamos todos encandiados. Os abecedistas da velha guarda, remanescentes da Guerra do Paraguai, é que estão encandiados para sempre. Até hoje