Há em Natal dois
tipos de torcida: a torcida comum, ou seja, a de
qualquer equipe de futebol do nosso estado, e a
Frasqueira do ABC. Pra quem não sabe, uma breve
explicação acerca de tão folclórico nome se faz
necessário. No antigo Juvenal Lamartine, o
primeiro stadium de football (A grafia era
assim...) de Natal, a torcida do ABC ficava
confinada em um espaço destinado ao povão. Era
ali, no sol ou na chuva, que a maior torcida do
estado reunia-se nas tardes dominicais de futebol.
Do outro lado, gozando da sombra e um espaço bem
maior (Até hoje nos perguntamos: pra quê? Maldita
burguesia...), a torcida do time encarnado.
Vomitando a arrogância típica, coisa não superada
por eles até hoje, os vermelhinhos descendentes
dos Xarias (Grupo que, possivelmente, serviu de
base para o surgimento dessa pequenez)
menosprezavam a torcida do ABC chamando-a de
‘Frasqueira’.
“Olha lá o pessoal da Frasqueira!
Frasqueirinos!”
As chacotas eram diversas, mas as conseqüências seriam
eternizadas no imaginário popular de tal forma, que se
soubessem do bem que nos fariam com essa coisa de
‘Frasqueira’, engoliriam toda a soberba em um só
momento, de rabinho entre pernas. Tentaram denegrir e
acabaram fazendo surgir a única torcida do estado a
ter um nome próprio, até hoje! Na verdade, além do
nome, a Frasqueira tinha e têm um estado de espírito
particular, singularíssimo.
Falaram de mitos como se tal ‘posto’ conquistado pela
Frasqueira fosse inverídico. Ora, senhores, MITOS são
construções não de empresas marqueteiras imbuídas no
comércio capitalista, ou de pseudo-propagandas mal
cagadas em paredes caiadas de cal da pior qualidade,
mas sim do ser humano, ser social, buscando explicar o
inexplicável. Segundo Fernando Pessoa, “O mito é o
nada que é tudo. O mesmo sol que abre os céus é um
mito brilhante e mudo.” Somos assim, inexplicáveis,
sagrados e profanos. Não há autoridade que possa
desfazer o que está feito, pior fica se for um
encarnado chutando baldes de alegria pela vitória
recente e com o desejo de auto-afirmação preso durante
quase 100 anos de existência transtornada pela
existência de algo sagrado e intocável.
Em se falando de futebol propriamente dito, o último
Clássico realizado no Machadão foi fonte de mais um
ensinamento da Frasqueira. Dos 10% que nos destinaram
em reciprocidade ao que ocorrera no Frasqueirão,
ocupamos uns trinta. Destilando terrorismo aos quatro
cantos do mundo e durante toda a semana, a corja
vermelha tentava desesperadamente barrar a compra de
ingressos dos Alvinegros. Barraram? Procure saber.
Dizer que sai do estádio feliz como já sai vezes
passadas seria muita hipocrisia, mas não me
entristeci. O ABC tem créditos comigo, principalmente
contra o rival, roxinho e magoado de tanta chinelada
cruel.
Quem deve chorar todo dia, indignado pelo norte
confuso dentro de um clube que se diz superior
anos-luz, são os freqüentadores zonais, vermelhos de
raiva, brancos de medo. O ABC vai muito bem, obrigado!
E tem um futuro brilhante pela frente.
As escolhas - mudando de assunto bruscamente -, por
exemplo, são cruciais nas nossas vidas. Na inauguração
do Estádio Municipal João Cláudio de Vasconcelos
Machado os clubes foram perguntados sobre onde queriam
ficar nas novíssimas arquibancadas. O Alecrim escolheu
o lado esquerdo das cabines por ter uma torcida menor,
o ABC escolheu o lado oposto às cabines, no sol, porém
maior, e o encarnado resumiu-se à sua raiz burguesa,
escolhendo a comodidade da sombra da marquise e um
espaço diminuto. Juvenis, não nos culpem por suas
malditas, pífias e comodistas escolhas. O espaço do
Alecrim é de direito, o de vocês também. O Nosso? Nem
se fala, é óbvio.
De uma coisa tenham a certeza: MITOS são irredutíveis,
intocáveis. O choro é livre pra vocês, pois quem anda
masturbando pau-de-sebo, subindo e descendo a cada
rodada não somos nós.
Esse pequeno artigo vai ser publicado no site
futebolnordestino.com.br, o qual sou um dos
colunistas. Quem estiver querendo ler, que leia!
Hehehe...
Foi meio que em resposta a uns autistas.
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